segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Alícia

Há um vale atrás da balaustrada na curva do caminho,
mas quem chega só vê a superfície de flores.
O viajante sustenta os cotovelos e contempla
as cores que se estendem longamente,
mas não é um campo de flores.
Apóia os pés na reentrância da coluna para atravessar
e cai
sobre as hastes altas e flexíveis terminadas em botão,
no céu.

Um disfarce de flores para o abismo.




Ana Claudia Abrantes

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Uma casa

Chover lá fora não é o bastante.
Os canos aqui deveriam fissurar por dentro dos tijolos
e nada deveria ser intempestivo.
Toda rachadura levaria anos se desgastando
enquanto o emboço, cada vez mais úmido,
molhasse mal se encostasse a mão.

Uma solidão, leve, feito a brisa de duas asas
mina do fundo das paredes
e na superfície se faz o esperado vazio,
o frio almejado, quem sabe
até a frigidez, meu deus, como é preciso o frio.
estar só e feliz numa casa
simples, velha, completamente infiltrada.
Das narinas desenhar o caminho da expiração
tão mais quente que o ar.

Ir vazando, com um sopro mínimo
fricativo e sibilante
que de tão contínuo e filete não chega a pingar.
É o síngolo que chega,
único pêndulo ressoando a sinfonia inteira,
finalmente capaz e íntegro - um sino.
Mas toca estridente e melódico,
passional ou submisso aqui, no esterno,
como voz feminina tombada
por um exército de signos viris,
empunhando flores e espadas
sobre cavalos brancos.

Vagar pelos cômodos, conhecê-los.
Pela leveza etérea dos panos do vestido
que aderem aos portais e maçanetas orvalhadas, compreender
que a loucura dos homens não vê razão
na solidão.
Então rogar pela clausura desvairada!
Em paz!
Assim sonhar com uma parede azul claro
e carregar dentro de mim uma casa
fresca, úmida, suficiente e vazia -
uma casa.
Em qualquer casa que eu vá.



Ana Claudia Abrantes

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

acordados

forçar a língua para lamber à frente
é tanto inventar aspectos verbais impensados quanto conjugar flores do campo e orquídeas
num só arranjo.

criar e forçar.

sentir queimar a língua, alongando-a úmida, dói e arde.
elástica língua, como partes do corpo, berrando impropérios ou gemendo
acordos.
tensionar ao limite a distância espacial,
mas não romper a fibra.

solucionar o desfecho com a geografia de um de nós
aberta no sofá da sala.

.
.
.
.
.

passada a chave, nós dois.





Ana Claudia Abrantes

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Pretensão

Sentou à janela tendo chegado agora. Botou o pé no encosto da cadeira. A mão no queixo, o olhar atento, caderno aberto. Ouviu os dois minutos finais e palpitou. Tudo o que tinha a dizer era o mesmo, sobre o qual já se havia falado, mas sua voz é sonora. Ele pensa que é destoante a sua voz e que é mais alta. Ela só é sonora. O galã revoltado com a fofice do mundo, ele mesmo um fofo.


Ana Claudia Abrantes

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

brevíssimos XII sem títulos

por que não.
com você, meu rei de copas,
eu seria sempre
uma sacerdotisa indo embora.


a jugular arfou,
mas acabou em coágulo.


tomilho, açafrão, noz moscada
frutas coadas, balas e gomas
predadores do mar xenofóbicos
contra o câncer.


o vício linguístico é lícito.



Ana Claudia Abrantes

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

história da aranha pelas vidas

na primeira vez veio borboleta
com a asa quebrada desde a saída.
na segunda foi formiga
forte, mas neurastênica.
na terceira, um pequeno mosquito, mas nunca
até então nunca tinham-na visto aranha
delicadamente felpuda.




Ana Claudia Abrantes

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Juliet

Juliet está florindo de novo, e entre a clavícula e a tíbia ela engordou. O seu corpo no chão as coxas grossas sustentam. E o ventre a cada dia se insinua, não por semente, mas por idade. Os seios continuam, por enquanto saltitam para, quem sabe, perfurar pensamentos ou para arrancarem-se os bicos. Servem. O rosto nunca mais o mesmo os sulcos
cada dia mais profundos os olhos...
nunca mais inocentes, mas eles continuam brilhando por saudade.

Juliet está florindo de novo.
Arranquei as flores velhas e secas quando vi que não podiam mais e agora
eu vou queimar os meus gravetos e veias, pois só brotando de novo eu poderei
ser Juliet também.



Ana Claudia Abrantes

terça-feira, 19 de outubro de 2010

reincidência

o quarto acordou com cheiro de passado, passei inseticida.
limpei gaveta, armário, chão, cortinado

tua imagem

deixei no porta-retrato.




Ana Claudia Abrantes

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

"aqui jazz"

sax barítono é o mais grave
e o mais grave também dói em surdina.



Ana Claudia Abrantes

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

o tempo e o afogado

não é possível conter o avanço das cáries.
atrasar o relógio seria lúdico,
mas o corpo continua cansando
até a fadiga.
tento flashes e fotografias
para parar os dentes,
mas eles ainda escurecem
dentro da boca.

enquanto isso no fundo do rio
fazem força duas correntes.
elas se opõem e pesam.
é por isso
que o náufrago fica
ali para sempre.




Ana Claudia Abrantes

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Todas as putas poéticas, minhas amigas, são bem-vindas ( ou... Dividindo Orfeu)

Acordes não tocam sem acordar lobos, fadas e bruxas, igualmente.

Por uma outra música
nos meus ouvidos eu vou até o seu sax
que faz
o som que levanta e desata os nossos nós.
E para rompermos histéricas o silêncio da madrugada
com uivos roucos,
nós possuímos as suas cordas também,
barbarizamos você.
Por isso cante calmo, fale calmo, mas sem recitar, não afete,
que um poema afetado é um poema perdido
e não queremos deixar nada cair.
Mas abundância sem juízo
retratos espalhados, reincidências e crimes invictos
não são desperdício.
Sim, assim... um pouco mais lento e profundo, ou breve e eficaz.
Agora passe para o violão, o sol já vem sem blues.

Levante o dia para as possuídas, Orfeu Das Seis...

Um cheiro de mel de abelha e canela
misturou-se com o seu café forte,
que não bebemos bem acordadas: deliradas.
Entredormidas, vamos erguer palavras a partir de agora.
Com alguma prolação.

Então fica combinado assim:
de dia escrevo para arder à noite;

viremos em bando queimar aqui.





Ana Claudia Abrantes

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

nó na garganta

faca cortando algodão-doce quem sabe é capaz
de oxidar o açúcar.
não se rasga algodão com faca.
um corte palpável é mais palatável e exige
a ponta dos dedos.
sem essa delicadeza é provável
a lâmina enferrujar o doce,
o doce descer pela garganta feito lã-de-vidro
e na entrada do esôfago parar, moído
entalado,
obliterado,

para o vidro não correr.



Ana Claudia Abrantes

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

imagem

pedras de papel marchê
quando se quebram
viram flores.





Ana Claudia Abrantes

beijo negado:

um arco-íris que diz não.
a memória colorida vencida.
uma Estrela Cadente de um céu sem véu.

e os lábios distantes, tamanhos,
de fel
como um soco em minha boca ardente
ainda quente.





Ana Claudia Abrantes

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

insípida e fresca

água bebida na concha da mão é que nem poesia, um mal secreto.
está chovendo dentro da gente
e não voltamos iguais.




Ana Claudia Abrantes

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Amelie

Dentre tudo o que prometia

cama
mesa
banho

área e varanda

toddy na mão

colo sem tesão
tesão com colon
com jazz
ou funk
nada
dava mais prazer
que ler
seu livro favorito
com o bumbum empinado

sobre a cama.



Ana Claudia Abrantes

sábado, 4 de setembro de 2010

Perdão

Não vá chorar a Deus a vergonha de teus olhos grandes e baços.
antes de julgar os olhos, a boca, o gosto alheio, escuta
a tua alma que pede pra voar, mas implode nervosa,
a tua alma entalada pela tua inveja, e Deus
nada tem a ver com isso.
me beija, então, e esquece
agruras aqui na minha boca são mais nuas
e não há vergonha,
somente olhos
cegos,
semente
e misericórdia.



Ana Claudia Abrantes

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

a vela

revelar suas vias é vê-la
ao vento nos cabelos,
velando
a direção que singra
o mar.
revela e avança, aquática
da vela vem o céu, o impulso
a desvelar do ar a força
de levar.



Ana Claudia Abrantes

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

demolição

farrapos e pedras quebradas
e mesmo assim
o amor ainda
crescendo em ruínas



Ana Claudia Abrantes
(Depois de visitar ParadoXos)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

quadrilhas malcriadas

a pata só baba pelo esperto porque o esperto só bebe o que o bobo perdeu.
o bobo só baba pela pata porque sabe o que bebe quem venceu...
a pata não sabe que o bobo só não sabe falar nem dizer é meu.
a pata não sabe que o esperto é o pato babando o que o gato comeu.


Ana Claudia Abrantes

As quadrilhas malcriadas veem o gato e o invejam.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

delicadas desilusões

menino caminhando com espelho encostado na frente do corpo e refletindo o teto
sabe muito bem o que é andar nas nuvens e cair do céu.



Ana Claudia Abrantes

terça-feira, 17 de agosto de 2010

o vento e o tempo

agora é o vento
não o sopro.
é o vento espalhando as notícias
que não contamos.
as cartas que não remetemos,
os bilhetes reescritos rasgados,
as nossas palavras retrocedentes:
tudo é quase e ventania,
tudo solto.
todos os papéis picotados,
centrífugos, alados
que não rejuntamos.
tarde demais.
rodam em espiral no centro do pátio,
na tarde fria a farfalhar,
os pedaços de recado que amarelaram.
virou papiro a nossa última mensagem
e ressecou em pequenos cacos.
as anotações no canto da página 74
já não explicam mais
já não perguntam mais.
nem excitam curiosidade.

agora é o vento,
não o sopro.
é o vento que só não desfaz
o caminho da luz indireta
sobre as flores
que arrancamos,
pensando em nascerem outras.
mas é por pouco.

agora é o vento,
carregando o tempo
no topo
do redemoinho.
é o vento agora quebrando
a ampulheta,
soltando as maldições, os ciscos,
as horas e a areia
sobre nós.

é o vento, tiritando os dentes da gente,
enregelando os espaços vazios
entre os feitos e os não feitos,
entre o cachecol o pescoço a orelha e a cabeça
(importante não perder uma coisa nem outra)

impossível conciliar
o ar
quando ondas sopradas de todas as direções
e ambos os sentidos
arrebentam sobre a brisa fresca.
enchendo os olhos, arranhando
aderindo às narinas,
chocando o céu da nossa boca
com pedaços de gravetos, folhas secas e poeira.

agora é o vento,
não o sopro.
o vento invade entredentes e tilintes
nosso paladar das coisas,
freme até nossa saliva, granuloso,
com o tempo arenoso nas gengivas.


Ana Claudia Abrantes

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

corpo estranho





as águas nunca são a água.
as águas são
águas com águas com águas.


adere a fonte ao riacho
o riacho ao rio
adere o rio
ao mar.
as águas se lavam mutuamente,
águas múltiplas aderentes
no enxaguar.

as águas que saltitam beliscando pedras
ou as que pesam sobre o chão de lagos,
todas as águas
são várias.

águas paradas e querentes,
absorventes ou correntes, as águas
não aguam
pelo singular.
as águas só aguam
por aguar.



Ana Claudia Abrantes


(vídeo de antoniodepaduajr, aqui no alto e aqui: http://www.youtube.com/?hl=pt-BR&tab=w1&gl=BR)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Hades fala III



Ele abre a boca e é difícil entender o que diz pois sua voz é um arquipélago de vozes separadas pelo mar, mas a ira de uma legião é inconfundível:
- Não vejo essa encruzilhada que vês, eu vejo é um caminho reto, reto! Se ao menos encruzilhada eu visse. Quando eu fechar o portão atrás de ti, nem Hermes poderá voltar, nem tu! Essas flores são falsas, não nasceram no meu jardim vermelho, condeno-as; condeno-te. Que venha Zeus para arrombar a porta, que Deus recrie o mundo e se faça um novo Gênesis; trancarei todas as chaves de mim - e inclinando um pouco a cabeça e o tórax, pergunta de olhos fechados: - Mulher, mulher, por que me abandonaste?

Ana Claudia A.

Flores de romã são tão singelas que ninguém as vê.



Flor de romã não é flor de laranjeira, não é flor de bergamota, não é rosa! Eu disse "flor de romã", imbecil. - Perséfone ordena a Hermes, que continua a procurar em todos os mundos.


Ana Claudia A.
(Foto de L.Câmara)

Perséfone fala I



- Nenhum outro desejo vale a tua ausência (sua voz é suave e derramada.) A primavera não sanará a escuridão de meu coração tão pesado(argumenta racional e pedinte.) Aqui é meu lugar e não vou sair! (apela.)
Nesse momento, Perséfone olha para os lados e vê que sumiram todas as romãs.

Ana Claudia A.

domingo, 25 de julho de 2010

Barbie e Ken - Toy Story Revival




Barbie e Ken chamaram seus amigos pra jantar. Bob e Susie trouxeram Fofolete, pois todas as babás confiáveis estavam ocupadas. Falcon Olhos de Águia veio sozinho como sempre, já que na vida de batalhas e aventuras que leva, o amor é quase impossível. Polly Pocket está curiosa e se sentindo um tanto atraída pelo Playmobil Bombeiro, embora ele seja muitos anos mais velho que ela.
Uma entrada, um vinho, amenidades.
Todos são suficientemente discretos para não comentar a indumentária ultrapassada nem o tamanho do cabeção da boneca de papel.


Ana Claudia A.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

suave

não sou sua sem suor,
mas suave sou se dócil ele for.
mais suave sou se, dócil, suar.



Ana Claudia Abrantes

quarta-feira, 21 de julho de 2010

true lies (ou caderno de anotações)

aqui
tem
colo,
mas
melhor
não
me
ras
gar.




Ana Claudia Abrantes

Presente





Imagem de J.Kalbourian
Sobre o poema "pela janela entreaberta para um espantalho"


pela janela entreaberta para um espantalho

ambiente - uma sala silenciosa pintada de azul claro.

personagens - um pardal célere, um observador


entrou um pardal pardo na sala azul,
acelerado na sala fixa,
inquieto, de voo curto, na sala quieta.
da janela até o sofá, do sofá até a janela
o que se via era
pantomima de corvo no céu.
no peitoril,
sem enxergar ou intuir
a abertura certa,
feito mariposa ele se debatia
contra o vidro antirreflexo,
que lhe era o sol, vedado.
espantalho móvel de susto,
mau agouro anunciado do azul,
também às vezes me sinto
um pássaro burro.



Ana Claudia Abrantes

terça-feira, 20 de julho de 2010

culinária de platão

não misturo teu pecado
ao meu tempero
nem meu corpo à tua massa.
tua imagem salpicada no meu peito
faz fumaça.





Ana Claudia Abrantes

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Literatura de Cordel - uma experiência. (O dia em que Deus deu folga ao inferno)




Foi um tempo de tristeza,
desses tempos agourados,
pois a tal moça singela
que um dia viu o diabo
demorou, mas, sim, danou-se.
Misturou-se em mesmo saco.

Namorada do Sem Nome,
uma amante dedicada,
sendo só por ele amada,
e querendo ser galada,
foi bondosa, resguardou-se
pra tentar salvar-lhe a alma.

...

Mas a alma corrompida
de Anjo que é do céu caído
tinha atos só pra moça,
para a moça e para o inferno.
O amor que o homem tinha
era só para a guria
e também pro tal castelo...

"O bondoso é bom pra todos" -
Pode ser que o Senhor diga.
Só quem sabe é quem mais sofre.
Sabe a dor de Heathcliff?
Pois Tinhoso era esse tipo.
Catarina, amando o Bicho,
uivaria, assim, feliz.

Redenção não haveria
para amável Capiroto.
A mulher não poderia
proteger o seu pescoço.
Pois juntou-se ao Tal nas manhas,
aprendeu, então, um pouco
do amante umas façanhas.

...

Por amor, Nossa Senhora,
valha a massa brasileira!
Que a mulher, em certa feita,
quis fazer uma proeza:
o profundo de um desejo
reuniu na sua sina
e pregou uma mentira.

Sai de baixo, sai de cima,
sai do meio, sai da esquina,
sai da rua, sai da casa,
sai do quarto, sai da sala
sai da frente, sai do lado,
sai do tudo, sai do nada!

Barbazul não é tão mau,
só queria era danar
cada jovem desleal.
Escondido atrás do enxofre
e das mãos de alçapão,
Barbazul também sabia
que ele tinha um coração.

Coração cheio de escudos
com as armas arroladas,
reunidas desde a infância
do Capeta em menino,
o horror Barbazulzinho.
Com o peito amargurado,
descobriu-se atraiçoado.

Como é triste o dia D,
Quando a Besta também chora.
Mais sofrido é não se ver,
ao seu lado, sua Senhora,
que o Fel mandou embora.
Pois do céu de onde ele veio,
caiu Lúcifer um dia.
E do Hades, sem floreios,
Cai Perséfone agora.

TUM
TUM
TUM!

...

Contra Deus ou contra os deuses
essa história não vigora.
Mas também contra o Amor
não é bem chegada a hora.
Os Demônios também amam,
tão amantes que é o diabo.
A paixão dos Pestilentos
tem a força de Tanatos.

Pois um doce era a menina
tão alegre e inda sincera.
Céus e infernos resolveram
que a mulher não merecia
ser julgada à revelia.
E os Canhetas assinaram
que o engodo era quimera,
e até dos Céus se ouvia:
"Escamoso, cuide dela!"

...

Sete Peles já sentiu
um alívio tão danado
quando a moça lhe sorriu
numa volta ao seu reinado.
Para o trono os dois seguiram,
sem os dramas derradeiros.
E fizeram amor autêntico
que aprenderam com os deuses,
praticando-o em seu reino.


(Chegando a esse ponto o narrador confunde propositalmente as noções de Hades, inferno e Diabo... Mas decide continuar a história, que julga mais bonita assim.)


Nesse dia, o barqueiro
nenhum óbolo aceitou.
Ancorou junto ao portão,
as entradas atrasou.
Todas almas malogradas
foram mesmo adiadas,
pra que o homem acolhesse,
na alcova então divina,
o retorno da rainha.

Mesmo em fé politeísta,
heresias e adultérios,
porque sério era o Amor,
um honesto sentimento,
não seriam os atores
empecilho ao cumprimento.
Nem por serem os pagãos,
ou porque, amasiados
seu laço era condenado.

Pra que houvesse todo tempo
pra que o amor se consumasse
e valesse o bom intento
da celeste e da vil classe,
Deus deu folga para o inferno! (O narrador sorri bondosa e abertamente) ...
Que os mortos esperassem!
Que fechassem as passagens!
Que o instante demorasse
pra Perséfone e pra Hades...


Ana Claudia Abrantes
18 e 19 de julho de 2010

oco e vazio

nada
ar
nada

breve
leve...



Ana Claudia Abrantes

Barbie e Ken, les enfants





"Babi, vem cá."
"Não."
"Quero te mostrar uma coisa."
Babi se aproxima e Ken estica o elástico do short para a frente, vitorioso. Entre curiosa e divertida, Babi faz "ah" e sugere que os dois fiquem sobre o último degrau onde faz sombra. Tenta explicar que ambos devem escolher cada um o seu lado do degrau e ficar de pernas abertas, centrados, pressionando a quina.
"se balançando." - demonstra.



Ana Claudia Abrantes

domingo, 18 de julho de 2010

Dúvida

As pessoas que passam em frente à loja de brinquedo riem do macaco de pelúcia com convulsão, mas o menino não acha engraçado. As pessoas riem do palhaço que perdeu as calças, mas esse garoto não acha engraçado. As pessoas riem do Dom Quixote e do Sancho Pança, mas ele não acha engraçado, não acha nada engraçado.
Olho para o pequeno e não sei se é por princípio, solidariedade ou desesperança. Por isso não sei se gosto ou desgosto.



Ana Claudia Abrantes

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Barbie e Ken

Ken descobriu que Barbie tem tetas e pode dar de mamar a quem quiser. Quando vê filmes pornôs no seu sábado solitário, para cada espécime de Barbie, inclusive as tediosamente vislumbradas, Ken se imagina no lugar dos homens, todos os atores, chupando, chupando. É obviamente por isso que ainda não precisa tê-la: ele já está lá, na cena, comendo a mocinha fútil e burra. Desde que, em criança, Babi o ensinou a se balançar na quina do último degrau, ele só goza com ela no pensamento, só rabisca notinhas de desamor por causa dela. Ken sabe que Barbie gosta de diálogos amorosos embora ela nunca tenha lido Barthes, sabe que a mulher é terna e puta, capaz de se arrastar feito um cachorro atrás de um gato arranhador malvado e depois acolhê-lo com todos os perdões próprios de seu metiê. Sabe que ela entrou em sua casa e o achou estupefato, embora Barbie desconheça o que significa essa palavra. E por ter descoberto isso tudo, Ken não consegue mais pensar em outra coisa.
Ken descobriu tarde demais que Barbie tem tetas e mostrou cedo demais que ele tinha um pau.


Ana Claudia Abrantes

Pessoa e persona

Uma luz mais baixa do que ela merece, cadeiras dobráveis um tanto enferrujadas, uma cerveja cristal em um copo de plástico na mesa da bela k., autêntica protagonista. Puseram uma ficha e está tocando "Eu não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio, pilar da ponte de tédio, que vai de mim para o outro... lá lá lá... ", interpretada por A.C.:

- O garçom pergunta "O de sempre, kiki?"
- Não, melhor não. Acho que ele chega mais próximo e pergunta "De novo?"
- Ótimo, assim ficou intrínseco. Então, kiki finge ignorar a pergunta, levanta devagar com seu olhar blasé e sagaz em direção ao foco de luz, segurando a cartolina de véspera, para pôr mais uma ficha. Nisso sabe-se observada pela plateia, sempre estupefata, de garçons.
- Pode ser... Mas acho importante que k. deixe entrever que se sabe observada, embora disfarce não olhar para os lados, primeiro isso... Depois é imprescindível que a estrela brilhe com notinhas encantadoras:

- "Eu sou só afeto."


Doçura e Avessa param de escrever, saindo da cena.
Começa, brilhantíssima.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Fragmentos de um discurso amoroso

Quero compreender (1994, p. 50)
Compreender.
Ao perceber repentinamente o episódio amoroso como um nó de razões inexplicáveis e de soluções bloqueadas
, a pessoa exclama:

1. _ “A mulher que mais amei me achava um Deus, mas não me adorava”! – dizendo isso, k. se esconde atrás do cartaz que desenhou com lápis cera, cola colorida e purpurina, onde pintou um sorriso sem olhos, para servir de máscara grega. A outra, que nunca foi a outra nem a mesma, uiva como os cachorros sem vergonha de saudade do dono, mas não desenha e mete a cara no proscênio:
_ O pano de boca está manchado de batom cor de rosa, mas a plateia é marrom.

2. A plateia movimenta-se sobre os assentos, mas não grita, pois não está assistindo a uma final de futebol. Um admirador, completamente seduzido por tamanha altivez, sopra do fundo:

3. _ Bela kiki, você é só afeto.



Ana Claudia Abrantes

terça-feira, 13 de julho de 2010

preferência

- Fala a verdade, apêndice bom não dói, mas também não inflama.





Ana C
(Por causa da Milena, que eu conheço sem conhecer, ando fazendo uns brevíssimos à-toa)

girassol guardado

como aquele super-herói ao contrário que só fica invisível quando ninguém está olhando, ele enfeitava o escuro.



Ana Claudia Abrantes

segunda-feira, 12 de julho de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

Barbie recebe Ken

- Atura-me - diz ken, o que pode gerar diferentes soluções:


1) Céu

Barbie fecha as pernas, gritando "Mas você não é Deus!" - bate a porta e vai para a sala ler o Cântico dos Cânticos.

2) Chão

Ela vira as costas, girando em decúbito e pára
sobre quatro apoios:
- Então não pare agora.

3) terra

Ela o recebe, como uma mulher, mas exige um fio.



Ana C

sábado, 10 de julho de 2010

Desconversando

- Ladrão de galinhas é a putaquiupariu! - ele poderia dizer, mas preferiu tergiversar.



Ana Claudia Abrantes

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Exemplo

Um dia vou comprar um batom vermelho então vou ser uma mulher. Já tenho finalmente um perfume francês, e lápis azul petróleo para combinar com os olhos, estou aprendendo. Minha mãe não me ensinou a me maquiar nem pelo exemplo, mas ela me apresentou os dois extremos de uma só mulher: eu sou calma, eu sou histérica; conforme convém. E vou, feliz descompensada, nesse desequilíbrio estável que é tambem uma síntese da mulher que em mim se adiou. Hoje saio descabelada para o trabalho, ou decido que já é hora de ir à padaria de salto fino enfim. Aprendi com as fotos de Clarice Lispector que rímel preto nas pálpebras é um nocaute! Enquanto minha mãe me ensinou, silenciosa, que os olhos mudam e por isso mudam as coisas. Tá certo, mãezinha, já faz um tempo que comprei o rímel. Não, não vamos chorar agora, não é á prova d’água…


Ana Claudia Abrantes
(Para M.)

Promessa

Um dia a flor vai criar raízes na pedra
e toda a Terra virá descansar à sombra da maior roseira do mundo.
Serão flores brancas, meu amor.
Uma vez por ano, um botão vermelho
indestrutível.


Ana Claudia Abrantes
(Para V.)

Bodas



É evidente que um cálice d'água, uma caixinha de jóia, um raro anel, um jarro de flores e uma cortina à brisa comporiam uma história ou um poema. É certo que existe poesia em tudo, e é claro que entre a prova de matemática e o desenho eu prefiro o que já escolho como teu melhor caminho. Tal como cai em suspenso o delicado pedido, é esperado que as flores fiquem murchas numa natureza morta.


Ana Claudia Abrantes
(Imagem de Milena Martins)

Dieta

Fruta-do-conde estourada debaixo da caixa de morangos mofando ao lado de duas tangerinas passadas.
Doce das coisas adiadas mas ainda ardidas,
não é um projeto de vida.
(Porque fruta passada tem mais açúcar. Ele se concentra todo, um pouco antes
de ir embora.)



Ana Claudia Abrantes

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Sábado ou despedida

Quer ir ao teatro, meu amor? Que tal um videozinho? Um cineminha, meu anjo? O que você quiser, meu bem... Sabe, na verdade, eu não quero não. Que tal um abraço? Uhm que bom... Dança pra mim? Que linda. Sabia que você é minha rainha? Mas, olha, nada disso eu quero, não. Quero curtir o meu sábado, ver minha TV. Fica aqui, amor, curta o meu sábado comigo. Do meu lado. Olha pra mim. Faz um cafezinho? Silencioso, eu? Eu? Não, amorzinho, só estou te admirando. Claro, o que você quiser. Mas o filme eu escolho. Não, eu também escolho a marca. Claro, sem dúvida só pode ser essa. Que bom, meu amor, pensamos do mesmo jeito! por isso que eu gosto tanto de você. Claro, claro, o que você quiser. Mas agora eu preciso ir. Preciso arrumar minha pasta de documentos, separar umas petições importantes, fazer a agenda de segunda-feira. Vou jogar um pouco de play-station, depois organizar o meu álbum de figurinhas. Ah, e o Monopoly Deal está todo espalhado no chão do quarto, preciso arrumar aquela bagunça. Adorei ficar com você, minha rainha, um beijo.

Ana Claudia Abrantes

terça-feira, 6 de julho de 2010

cubículo

fechei a janela
por causa de mosquito
tua imensidão
ficou no meu quarto.


Ana Claudia Abrantes

domingo, 4 de julho de 2010

pausa para uma graça alheia

FATOS

Não escrevo
sobre amor
ultimamente,
Finalmente não precisa.

Angélica Castilho
Rio de Janeiro, 27 de abril de 2010.

sábado, 3 de julho de 2010

vamos combinar



borboleta
bolha de sabão
neve de papel
são seres
da mesma categoria

Ana Claudia Abrantes

desejo

e assim eu queria me dar
para você:
fácil,
como a borboleta de asa quebrada.
e assim eu queria me dar
para você:
frágil,
como a borboleta de asa quebrada.
e assim eu queria me dar
para você:
ágil,
como a borboleta.
e assim eu hei de me dar:
tátil,
sutil.


Ana Claudia Abrantes
Para T.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

pela janela entreaberta para um espantalho

ambiente - uma sala silenciosa pintada de azul claro.

personagens - um pardal célere, um observador



entrou um pardal pardo na sala azul,
acelerado na sala fixa,
inquieto, de voo curto, na sala quieta.
da janela até o sofá, do sofá até a janela
o que se via era
pantomima de corvo no céu.
no peitoril,
sem enxergar ou intuir
a abertura certa,
feito mariposa ele se debatia
contra o vidro antirreflexo,
que lhe era o sol, vedado.
espantalho móvel de susto,
mau agouro anunciado do azul,
também às vezes me sinto
um pássaro burro.



Ana Claudia Abrantes

Porque é preciso

Por tudo que é mais sagrado manchamos tudo que é mais sagrado.

Por todas as verdades necessárias porém mal ditas,
todas as malditas mentiras bem ditas,
pelo engenho em dizê-las.
Pela arte de acreditar no que dizemos e no que dizem os seres amados,
mesmo sendo falsos os seres e as emoções.
Por tudo que nos é caro e que nos vem barato,
pela frígida certeza de ter
e por tratar como possuído o que se tem de fato.
Por lidar sem dor com o que se perdeu amargamente,
por seguir um caminho de formigas,
é que estamos vivos.

Porque se todas as verdades fossem bem ditas,
todas as mentiras, mal ditas,
porque se desacreditássemos em nós mesmos ou nos amores,
mesmo sendo claros,
porque se pagássemos o preço de tudo o que nos é caro,
porque se tivéssemos a certeza de ter
e ficássemos mais que satisfeitos com a certeza, felizes!
porque se deixássemos doer tudo o que doeu amargamente...
porque se escolhêssemos uma formiga igual a todas as outras e a seguíssemos no caminho de formigas,
estaríamos mortos.

Das coisas profanadas renascemos,
cada vez que uma mentira vem,
violentando o material de que supomos ser feitos:
triunfos humanos.

O engodo disso tudo é preciso,
e por isso tudo é que é preciso:
por tudo que é mais sagrado mancharmos
tudo que é mais sagrado.



Ana Claudia Abrantes

sábado, 26 de junho de 2010

a margarida torta



era uma pétala adicional,
alguns diriam um defeito,
como um sexto dedo:
a margarida torta.
ninguém notava porque,
embora enraizada,
mancava com graça
quando ventava.


Ana Claudia Abrantes

quinta-feira, 24 de junho de 2010

olhos vazados

Um exército de escorpiões alveja uma presa
as caudas já lhe atacam as entranhas,
mas não chegaram aos olhos.
Os olhos não sabem ainda o quanto arde,
o quanto estarão banhados
e que o coração paralisa.
Não sabiam os olhos que não há antídoto
contra o passo dado em direção àquela toca.
Nenhuma outra cidade te abrigará,
nenhum colo,
quando sobrarem tão somente os seus olhos cegos,
esgotados, colaterados.
Do veneno que quiseste assim voluntariamente
restarão apenas
eternos movimentos frenéticos, histéricos, involuntários.


Ana Claudia Abrantes

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sem nome (Água corrente)

Sempre comi voraz o que me pesa em pesadelo e o que me refrigera nas pausas.
Respiro para que tudo se evole e respiro de volta tudo o de que sou feita:
gergelim e aço, salpicada e firme.
Não sinto pena do meu signo nem me arrependo dos arrependimentos que tenho.
Porque há em mim dois seios em que amamento até meus inimigos.

Mastigo a memória do que quase me mata todos os dias e essa pulsação é que me amplia
para além de minhas margens,
e então, meu núcleo e minha periferia gozam junto comigo
e é bom.
Lembro dos meus amores e sinto a boca amarga, um vazio no esterno.
Lembro de Adão, de Ângelo, de Hilário
e me amasio com cada corpo passado, cada vulto de sorriso entrecortado,
cada mania, cada falta.
Brinco com seus cheiros esquecidos e pingo limão no café
para testar o paladar e assim
tentar nomear o que já naquela época não tinha nome.

Agora tomo a vida pelas minhas rédeas para poder trotar em Pedro, em Gabriel, e em Leonardo não, porque é o único inocente.
E cada um deles, um rio diferente, mas, hipópótamos, lá moram,
também um pouco sagitários.
Estão todos hoje dentro de mim ainda e talvez sempre, mulher 350, como Mário:
sou eu e Joaquim, eu e Fátima, eu e Teresa, eu e Lívio - os meus homens.
E aqui, conjunto de amores, lembranças, flores e florestas,
eu coleciono dores que não doem mais, tenho saudade de promessas que já não têm eco,
soletro nomes apagados com água.
Água - este solvente de tantas matérias,
esta prova de amor dos meus amores.


Ana Claudia Abrantes

segunda-feira, 7 de junho de 2010

túmulo




o homem só consegue
dormir em decúbito.


Ana Cl.
(Foto de Agatha Franco, retirada no Cemitério São João Batista, enquanto um trabalhador dormia)

rosas da sombra (giovannas)

são um tipo especial de rosa
que só abre, por aqui, à meia-noite,
cujo cheiro discretíssimo atrai apenas
os olfatos mais sensíveis.


rodam por essas paragens
notívagos de impressões sofisticadas -
únicos que poderiam percebê-las.
como o álcool e o sono nebulizam as imagens
e os sentidos,
os notívagos não veem.
no entanto,
altas horas quando caem tontos,
sua cabeça encosta nelas.


de manhã eles acordam lentos,
um pouco mais sutis, alternados
e vivem todos os dias
com um fino odor, uma ideia distante,
com uma lembrança estranha dos canteiros.


Ana Claudia Abrantes

espinho



a ponta do dedo
é natural.
não escorre seiva, mas,
veja, o sangue
é tão vegetal quanto.


Ana Claudia Abrantes

quatro tempos

I

grade
dia lindo lá fora,
mas estranho
não conseguirmos sair.


II

para não morrer
para não virar as costas
para não perder
a validade da alma
é que estendemos a mão
em carne viva.


III

eclipse.
útero inútil.
brilhar para sempre
atrás,
por sob,
até
que suba
o pano, a cortina,
a terra, a vida inteira.


IV

entrada
não pise aí, não
porque as pegadas
vão manchar
o inferno.


Ana Claudia Abrantes

segunda-feira, 24 de maio de 2010

brevíssimos XI

charada fácil

numa charada sobre torrones, a palavra proibida é torrone
e é por isso que eu nunca disse que te amava.



dos ditados

pergunte ao túmulo os segredos do cadáver para você ver.



cachorro uivando porque o dono viajou está melhor que nós.
nem tem vergonha dos próprios sentimentos.

Ana Cl.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

historieta salobra

onde a brisa é fresca e acalma, existe
uma árvore boa na beira do mar,
mas ali não dá pé.
a fruta doce da árvore boa
cai na água e mergulha
até o fundo.
cria tufo e limo.


Ana Claudia Abrantes
29 de abril de 2010

(Crianças pediram-me uma história feliz e maior, mas essa é desencantada e curta.)

terça-feira, 27 de abril de 2010

autorretrato caído,
caiado.
pó de arroz número mínimo,
o mais claro.
quero ver quem terá a cara de pau
de me enrubescer.




Ana Claudia Abrantes
27 de abril de 2010

origem

do pó, deus ergueu
o que já estava feito
e soprou em suas narinas o sopro da vida.

por isso até hoje é difícil
respirar sozinho.




Ana Claudia Abrantes
27 de abril de 2010

Não morreu.

Dom Quixote, Sancho Pança, meu irmão, minha cadela Brigite, Diadorim, Riobaldo, Fafafa, Rocinante, o asno. E o que fazer agora se tudo já foi dito? Consagrar cavaleiros andantes a todos os que escrevem, senhores do que não há a dizer.


Ana Cl.
mais que humildemente
hoje

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A natimorta

Em toda a sua vida, só deu a luz a três natimortos, todos os outros ela abortou. Um dia escolheu morar vizinha ao cemitério da cidade litorânea. Uma madrugada por ano, ela se esgueirava pelas ruelas do campo santo na tentativa de não ser vista pelos vigilantes e depositava ao lado de qualquer mármore ainda úmido o seu fruto seco, inteiro ou pelas metades. Com doze fósforos formando quatro hastes em apressada cruz equilátera, ela acendia o pequeno peito ou o que fosse um braço, e o fogo era rápido. Um dia, foi descoberta. Investigaram-na, deram-na como louca, prenderam-na, ela fugiu. Mudou para ainda mais distante da orla, mas, mesmo assim, todo ano passaram a surgir os delicados destroços de uma luta orgânica, no mar. Os pescadores, pensando que os tristes achados eram de mau agouro, procuravam aterrorizados não tocar e deixavam que o mar engolisse de volta o que era dele. Nunca mais foi pega. Por isso adquiriu confiança em sua sina. Passou a oferecer seus restos inanimados em auroras anuais, quando a madrugada encontra a luz baça e a penumbra, e quando o céu tem a cor dos seus filhos. Mas, apesar da longa caminhada de volta no sol já alto, ela cumpria; os anos corriam e ela seguia, cada vez mais pálida.



Ana Claudia Abrantes
22 de abril de 2010

ladrão de galinhas (ou causa e consequência)

vinha de longe, espiava e só roubava tralhas do quintal. Se ao menos tivesse levado uma das rosas, teríamos feito entrar.




Ana Cl
hoje

Manhãs

Manhã


Numa cabana velha e alheia à glória, um selvagem guardava um mundo encantado sem palavras nem silêncios. Guardar também é o segredo dos meus versos. Para eles uma turba não seria mais que uma pessoa. E eu já tenho a minha.

(Para J.)


Noite


Uma sonhadora que amou sozinha pendura o próprio túmulo pelo pescoço na moldura da cama e chuta. Ficam os pés soltos no ar feito um móbile trágico.


Madrugada


Veio um covarde e disse que queria o tesouro de peças inúteis de significar nada. E viu nelas a beleza de que precisava e recebeu o direito de recolhê-las para si, e assim se redimiu. Há mistérios que redimem a covardia.





Ana Claudia Abrantes
21 de abril de 2010
(Depois de assistir ao filme Todas as manhãs do mundo.)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Decisão

Nunca dar passagem a táxis. Não dar passagem a Kombis, nem a vans. Temer os ônibus e as 147 que acreditam que podem.


A. Cl.

Escuta,

teu silêncio não é produtivo, é pura falta de comunicação mesmo. Até que antigamente eu gostava dos mistérios mudos, que eu precisava interpretar. Mas meu dedo agora escolhe o diálogo, ainda que alucinado; meu poema é que não. Formula uma frase completa com sujeito simples ou composto, um verbo, um objeto. Convença-me da tua gramática pessoal. Quem sabe.


Ana Cl.
hoje

quinta-feira, 18 de março de 2010

embargo

assim ficou a vida.

ponte suspensa pelo meio,
escorrega dos dois lados.




Ana Claudia Abrantes
18 de março de 2010

Mariposas

Eis a luz. Ela é fraca e por isso chama mariposas feias, grandes e marrons, sem as queimar. Ela é morna e parece úmida, como nos ventres em que se tem água sem mendicância. E água não se nega. Os viadutos sujos são porto para mariposas, mas aqui elas sonham o impossível sonho de libélula. Que vai só, buscar a própria água.



Ana Claudia Abrantes
18 de março de 2010

Esperança

Sob os panos da capa e sem memória, um rosto.
Nas costas uma bagagem que se teve de aprender a jogar fora.
Um vento sagrado em lacunas,
Em vazios por onde se esvaem os méritos e todos os dons.

Ainda assim o homem pinta
Uma flor brotando no compasso dos pulsos, dos pulsos.
Por fora e no pulso só um botão, por dentro o caule na veia.
E em todo o antebraço interno, o hematoma roxo, amarelado
Na base da branca flor.
É necessário com cuidado puxá-la
como se puxa uma fístula por um fio, fístula-flor;
puxá-la quase cirurgicamente pela veia.
E depositá-la para adorno dos olhos
Atrás das orelhas a dor
Nos olhos.

Mas para passar a dor é preciso
Comer o céu de Chagall
Dançar de vermelho
Dar quatrocentos murros nas palavras e depois se render.
É preciso esvaziar de si o sopro e derramar sobre todos os papéis soltos (!) quando um anjo passar.
Nada voará em vão quando um anjo passar.
Sobre o desconsolo, sobre o consolo do silêncio, o vento.


E então sobre a capa agora um novo rosto
Na moldura de flor presa às orelhas.
Sobre a capa sacudida, com os olhos enfeitados de flor,
Limpar o rosto,
Limpar os pulsos.
Limpar o rosto do pó que o vento não levou,
Limpar os pulsos dos estragos da flor.
Fotografar de novo e enfim o rosto ao vento.
Fotografar de novo e sem véu
o céu.


Ana Claudia Abrantes
18 de março de 2010
(Para J.)

quarta-feira, 17 de março de 2010

envenenamento

a ampulheta obstruída pára o passado.
a terra até virou cal.
e eu aqui, salpicando as cinzas na comida,
como se fosse sal.



Ana Claudia Abrantes
17 de março de 2010

terça-feira, 16 de março de 2010

Como e por que ler os clássicos universais desde cedo

"... Mas lembro sobretudo e para sempre de como eu torcia por aquele herói que queria consertar todos os erros do mundo, ajudar todos os sofredores, defender todos os oprimidos. Em seu esforço para lutar pela justiça e garantir a liberdade, o fidalgo não hesitava em enfrentar os mais tremendos monstros, os mais pérfidos feiticeiros e os mais poderosos encantamentos. Nunca desanimava, mesmo tomando cada surra terrível, quando esses perigos ameaçadores se revelavam apenas alguma coisa comum, dessas que a gente encontra a toda hora no mundo. E então as pessoas achavam que Dom Quixote era maluco, riam dele...
Eu não ria. Metade de mim queria avisar ao cavaleiro: "Fique quieto no seu canto, não vá lá, não, porque não é nada disso que você está pensando..." A outra metade queria ser igual a ele. Até hoje." (Ana Maria Machado em Como e por que ler os clássicos universais desde cedo)

Quanto às ideias que passamos sobre os livros na nossa prática profissional:
Concluo que somos capazes de filtrar tudo erradamente, ou filtrar acertadamente para os olhos e ouvidos mais incapazes de ver e ouvir. Acho que algo que eu faça com paixão ganha o perdão da entranha. O leitor cresce, se solta. Ele há de fazer seus outros e próprios filtros. Como Ana Maria M. fez.
Eu me ofereço o perdão da entranha.

Ana Cl.
hoje

domingo, 14 de março de 2010

cena inurbana

rápido, um beijo apertado. a chuva, o vento. do táxi, um tchau possível, mas quem se despede? teu terno sorriso nos meus olhos.


Ana Cl.
hoje

sábado, 13 de março de 2010

Receita de comer chocolate crocante transcendentalmente

primeiro sugar todo o chocolate. deixar os flocos no alto da língua, que a boca vira um céu de estrelas. morder. e o firmamento se faz com estalinhos. depois, meditar.


Ana Claudia Abrantes
13 de março de 2010

quinta-feira, 11 de março de 2010

Pontuação ?, !?, !!!, ...

Os pontos finais são perfeitos na poesia, porque a arte pede que se adivinhe. Por isso, reticências e exclamações são desnecessárias esteticamente. Só alguns privilegiados mestres!, gênios!!, reis!!! podem se dar ao desplante, ao disparate do exagero: o heterônimo Álvaro de Campos, Mário de Andrade em seu momento mais ... ui... futurista, Mariana Alcoforado, Florbela Espanca, Álvares de Azevedo. Só tipos como esses podem. De resto, admiro e me deleito com a arte assim: que dá pouco para que se deduza o muito. Ponto.
Mas, na vida, hei de amar os bregas, os catatônicos, os patéticos, os mentirosos exagerados. Hei de encontrar o amor na doença, no pânico e nas manias, nos meus espelhos tortos e enferrujados, nos espelhos de circo, que me deformam, que me invertem, que me põem maior ou tão menor do que eu pensava que era. Na vida, é o visgo que me chama, não a seiva, é a cica que me surpreende, não o sumo; é o palhaço torto, feio, assustado, não a atriz enfeitada de algo que não é a própria vida. Hei de amar quem ama os ratos e morcegos mesmo que eu não ame ratos e morcegos, hei de morrer por quem me mata, hei de sofrer a ascendência de quem me domina, hei de contrair doenças por amor, hei de curá-las por raiva. Na vida, hei de suprir o amor a quem não ama a si próprio, hei de morrer por minhas causas injustas, validada apenas pelo fato de que são as minhas causas injustas. E não me arrepender de ter morrido e não viver de novo sem um cimo, um sino, um ritmo, uma obra que me contagie a inteligência e a vontade. Na vida, mais que os sotaques e sinais diacríticos na voz de meus amores, quero-os com uma combinação de interrogação e susto, quero-os com a vivacidade do pulo no abismo, quero-os com a pura indagação de quem esquece tudo, quero-os com força e devagar. A é uma interrogação constante, B é uma interrogação acompanhada de exclamação vívida, C é meu buraco negro de exclamações em sequência e D há de ser pra sempre minhas reticências. Não ligo para E, que nunca exclama.
Na arte, é suficiente o ponto e fim, ela se basta e se amplia além dos meus contornos, ela já é grande. Mas a vida só me anima quando se me dá transbordando, mesmo que eu nunca tenha sabido exatamente o que fazer com isso.

Ana Claudia Abrantes
11 de março de 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

destempo

amar, sem, querer,
este, sem, poder
sem, querer.
me quererem, contrária, do que sou,
e assim, terem, a mim,
pela metade:
um destempo de tudo.
chorar, enquanto, vão,
ir, enquanto, ficam.

aqui, não é, agora,
outrora, éamanhã, talvez.



Ana Claudia Abrantes
09 de fevereiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Drogas

Reações adversas. No rótulo não estava escrito "podem aparecer alterações na pele (vermelhidão, urticária)", o que, sei, afeta diretamente o sistema simpático, já que neutraliza os efeitos cosméticos dos frascos e das frases feitas. Psicossomatizei você e não há nada que me faça te engolir, drágea.


Ana Claudia Abrantes
07 de fevereiro de 2010

sujeito e objeto

no sujeito, o paradoxo:
dele depende a coisa subjetiva;
ele faz, ele sofre.
mas no étimo, bem no íntimo,
é sujeito ao amor de alguém.


Ana Claudia Abrantes
07 de fevereiro de 2010

visão da cidade

sinal parado para carros.
do pára-brisa se vê
entre muitas pernas,
outras marcas:
nove pernas brancas no chão.
mas é tanta a travessia,
que a faixa de pedestres é que anda
em pedaços.



Ana Claudia Abrantes
07 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

breve história de amor

alice claudicante e airam alheado.

queria alice dar-se, deliciar-se.

aliciado, cede airam ao que era seu, toma-o.

alice então, alienada.

do lado de dentro, nem pensa

em quebrar o espelho.




Ana Claudia Abrantes
03 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

se é!

é e num é, tudo meio desarrumado mesmo, melhor assim. compensa que não sendo de todo não é tão ruim nem tão bom,
porque, sendo de todo, só é muito bom ou ruim como o diabo. melhor assim.




Ana Claudia Abrantes
31 de janeiro de 2010

sábado, 30 de janeiro de 2010

só para os bravos

dez horas de viagem sem ônibus leito metrô às seis da tarde viagem mochilão praia com isopor.
haleua gorgonzola puro língua de boi dobradinha coração de galinha isca de fígado cebola aos pedaços amor de uma vez trepada em dez minutos estupro dormindo.
quibe cru sanguinho dente de alho numa mordida só halls preta rúcula amarga mostarda na língua cinco pimentas de uma vez.
ventilador no saco calcinha suada pau no cu apertado todo dia mamografia.


Ana Claudia Abrantes
28 de janeiro de 2010

reveillon reverso

um pedido:
pulo sete ondas pelo peito no umbigo.




Ana Claudia Abrantes
28 de janeiro de 2010

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

a máquina

mama densa dói mais, mama tensa.
relaxa, mama, relaxa e atenta
tenta, te acalma, estica, respira, agora pára.
aguenta.
mama imensa, não! não pensa, não grita, não ai,
não, mama menstruada!, não tem peito, não? mas não tem peitoril que isso não é janela.
te encaixa aqui e te aquieta, tremer só piora, agora espera.
vou te medir com minha fita métrica, mas a medida pode ser elástica, a pressão que não,
porque, intensa, dói mais.



Ana Claudia Abrantes
28 de janeiro de 2010