sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Uma casa

Chover lá fora não é o bastante.
Os canos aqui deveriam fissurar por dentro dos tijolos
e nada deveria ser intempestivo.
Toda rachadura levaria anos se desgastando
enquanto o emboço, cada vez mais úmido,
molhasse mal se encostasse a mão.

Uma solidão, leve, feito a brisa de duas asas
mina do fundo das paredes
e na superfície se faz o esperado vazio,
o frio almejado, quem sabe
até a frigidez, meu deus, como é preciso o frio.
estar só e feliz numa casa
simples, velha, completamente infiltrada.
Das narinas desenhar o caminho da expiração
tão mais quente que o ar.

Ir vazando, com um sopro mínimo
fricativo e sibilante
que de tão contínuo e filete não chega a pingar.
É o síngolo que chega,
único pêndulo ressoando a sinfonia inteira,
finalmente capaz e íntegro - um sino.
Mas toca estridente e melódico,
passional ou submisso aqui, no esterno,
como voz feminina tombada
por um exército de signos viris,
empunhando flores e espadas
sobre cavalos brancos.

Vagar pelos cômodos, conhecê-los.
Pela leveza etérea dos panos do vestido
que aderem aos portais e maçanetas orvalhadas, compreender
que a loucura dos homens não vê razão
na solidão.
Então rogar pela clausura desvairada!
Em paz!
Assim sonhar com uma parede azul claro
e carregar dentro de mim uma casa
fresca, úmida, suficiente e vazia -
uma casa.
Em qualquer casa que eu vá.



Ana Claudia Abrantes

7 comentários:

Yan disse...

Maravilhoso poema, o melhor seu que já li e uma das melhores coisas entre as muitas que tenho lido ultimamente. Realmente maravilhoso.

Hoje entendo porque quando me apresentei a você como um aspirante a poeta você me disse que não procurava nem esse nem nenhum rótulo. Desculpe, mas você já é uma poeta, uma grande poeta, que eu admiro muito. Seus poemas me fazem continuar tentando evoluir meus versos a um dia quem sabe poderem ser compatíveis aos seus.

Parabéns por mais essas lindas palavras, beijos.
Yan.

Yan disse...

Ah, quase me esqueço, boas festas =)

Ana Claudia disse...

"poeta" - xingamento externo.
Na hora de seu definir, todo mundo se chama mesmo é de "humano" - modéstia ou pretensão disfarçada? Obrigada Yan, pela sua delicadeza.

Folhetim Cultural disse...

Olá parabéns pelo trabalho e pelo blog. Gostaria que visitasse meu blog que é este: informativofolhetimcultural.blogspot.com
nos siga abraços
Ass: Magno Oliveira

Letícia Palmeira disse...

Voltarei com o lírica, Ana. É so uma pausa "entre as faixas".

Beijo procê.
Vou deixar teu link no afeto pra eu vir ler você.

Ana SS disse...

Uau...

Fred Caju disse...

Ana,

Feliz Natal atrasado e feliz 2011 antecipado!

Gostaria de ter mais tempo para me perder/encontrar nas postagens daqui, mas por hora passo 'apenas' para lhe desejar felicidades. Depois volto como leitor faminto.

Abraços,
Caju.