quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Cata-ventos de luz no fundo preto,



não sei se vejo mais as suas sombras ou o bico dos seus beijos.


A.C.
C. Vitena

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Pétala



Se o fio de cabelo encontra espaço para ser oco,
Se a pele é transparente,
.
Toda a sua fragilidade compensa.



A.C.
C.Vitena

domingo, 8 de janeiro de 2012

Oração antes do dia d

Cumprimento meus inimigos
porque eles são belos e sérios.
Há quem tema borboletas.
Tem menino que tem medo de galinhas.
Outros temem flores.
Também não há porque temerem a mim,
mas eu os honro sinceramente
por sua gentileza, pela abundância de seus bens e de seus beijos,
pela generosidade, pela quase displicência,
pelo despudor amoral com que se enredam em jogos em que sempre vencem.

Porque não me é possível não honrar o homem honrado,
cumprimento meus inimigos com os olhos .
Depois de séculos, quando vejo uma ruína, fico muda
em respeito a todo erro travado nas arenas,
em respeito a toda a matéria sopesada.

Cumprimento meus inimigos com os olhos e com o tronco.
Porque em contato com a terra áspera os pés engrossam,
mas os joelhos ainda se dobram quando necessário.
Porque até hoje a vara se inclina para a força do peixe, antes de
definitivamente
pescá-lo.



Ana Claudia Abrantes

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Segredos simples




não se contam.
Um grilo, sobre pernas suavíssimas, pousaria sobre um peito sem acordá-lo.
A borboleta baila se adequando aos dedos que brincam com as asas amarelas.
A matéria de tudo o que é suave é leve, e é sucinto o nem se pode contar:
como ao beber água fresca: deixo-a pingar e não enxugo a boca,
como eu que vejo um buquê de flores do campo e o quero,
como minhas vontades de tomate,
como ter gosto de ver um carinho ousado de casal.

Há coisas que não se contam.
É do gato descer as escadas sem ranger degraus nem assustar a casa.
É da teia capturar o inseto sem antes ameaçá-lo.
O que não se pode contar não se pode conter.
O que te conto, não.





Ana Claudia Abrantes

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Quarto de despejo




Quanto maiores
os cílios
acumulam mais poeira.
Tapetes quanto mais felpudos: poeira.
Cortinas bem decoradas, poeira.
As pucumãs debaixo das escadas,
o pó decantado nos degraus.
Cobrindo o tempo nos móveis,
os lençóis acumulando ácaros.

O tempo parando nas casas,
o tempo no abandono dos quartos de despejo,
o tempo mal iluminado.

Poeira. Purpurina neutra salpicada com cuidado sobre as horas,
brilhando no feixe da tarde que insiste
em entrar pelo vidro da janela fechada.

A poeira aderindo à pele, no exame da ponta dos dedos
que passam
sobre a superfície da estante e da mesa, sobre a capa dos livros.

Os cílios,
quanto mais felpudos e bem decorados: poeira e rímel.
Uma camada negra e grossa de delineador
desde o canto até as extremidades.
Os olhos
por baixo da poeira dos cílios enfeitados
ainda reconhecem o que os dedos tocam:

as cinzas,
salgando a delicada aspereza, lenta, dos dias.




Ana Claudia Abrantes

sábado, 3 de dezembro de 2011

lamento

uns olhos faiscantes e só um pouco diabólicos, uma gargalhada de todas as portas abertas.
mas saiu como um cavalo selvagem de cabeça baixa.



A.C

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Segredos de andar com pipas




O segredo é não ficar completamente ereta.
Há de se ter um leve inclinar que no alto empina,
alguma coisa que se torne acima, que se erga orgulhosa,
mas que se estique como a pipa, ao mesmo tempo aérea e em molejo.

Uns ombros mais arredios que o esterno,
um esgar de meia entrada na sala, como se, estando ali, fosse inevitável estar em outro lugar.

Deslizar,
mantendo umas porosidades e recantos :
absorvências e visgos antes preparados com cerol, tempo e postes de luz.
Assim delgada, voar.

.
.
.

Prender,
em ocasiões incidentais.

Cortar, sem intenção...



Ana Claudia Abrantes