segunda-feira, 26 de julho de 2010

Hades fala III



Ele abre a boca e é difícil entender o que diz pois sua voz é um arquipélago de vozes separadas pelo mar, mas a ira de uma legião é inconfundível:
- Não vejo essa encruzilhada que vês, eu vejo é um caminho reto, reto! Se ao menos encruzilhada eu visse. Quando eu fechar o portão atrás de ti, nem Hermes poderá voltar, nem tu! Essas flores são falsas, não nasceram no meu jardim vermelho, condeno-as; condeno-te. Que venha Zeus para arrombar a porta, que Deus recrie o mundo e se faça um novo Gênesis; trancarei todas as chaves de mim - e inclinando um pouco a cabeça e o tórax, pergunta de olhos fechados: - Mulher, mulher, por que me abandonaste?

Ana Claudia A.

Flores de romã são tão singelas que ninguém as vê.



Flor de romã não é flor de laranjeira, não é flor de bergamota, não é rosa! Eu disse "flor de romã", imbecil. - Perséfone ordena a Hermes, que continua a procurar em todos os mundos.


Ana Claudia A.
(Foto de L.Câmara)

Perséfone fala I



- Nenhum outro desejo vale a tua ausência (sua voz é suave e derramada.) A primavera não sanará a escuridão de meu coração tão pesado(argumenta racional e pedinte.) Aqui é meu lugar e não vou sair! (apela.)
Nesse momento, Perséfone olha para os lados e vê que sumiram todas as romãs.

Ana Claudia A.

domingo, 25 de julho de 2010

Barbie e Ken - Toy Story Revival




Barbie e Ken chamaram seus amigos pra jantar. Bob e Susie trouxeram Fofolete, pois todas as babás confiáveis estavam ocupadas. Falcon Olhos de Águia veio sozinho como sempre, já que na vida de batalhas e aventuras que leva, o amor é quase impossível. Polly Pocket está curiosa e se sentindo um tanto atraída pelo Playmobil Bombeiro, embora ele seja muitos anos mais velho que ela.
Uma entrada, um vinho, amenidades.
Todos são suficientemente discretos para não comentar a indumentária ultrapassada nem o tamanho do cabeção da boneca de papel.


Ana Claudia A.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

suave

não sou sua sem suor,
mas suave sou se dócil ele for.
mais suave sou se, dócil, suar.



Ana Claudia Abrantes

quarta-feira, 21 de julho de 2010

true lies (ou caderno de anotações)

aqui
tem
colo,
mas
melhor
não
me
ras
gar.




Ana Claudia Abrantes

Presente





Imagem de J.Kalbourian
Sobre o poema "pela janela entreaberta para um espantalho"


pela janela entreaberta para um espantalho

ambiente - uma sala silenciosa pintada de azul claro.

personagens - um pardal célere, um observador


entrou um pardal pardo na sala azul,
acelerado na sala fixa,
inquieto, de voo curto, na sala quieta.
da janela até o sofá, do sofá até a janela
o que se via era
pantomima de corvo no céu.
no peitoril,
sem enxergar ou intuir
a abertura certa,
feito mariposa ele se debatia
contra o vidro antirreflexo,
que lhe era o sol, vedado.
espantalho móvel de susto,
mau agouro anunciado do azul,
também às vezes me sinto
um pássaro burro.



Ana Claudia Abrantes

terça-feira, 20 de julho de 2010

culinária de platão

não misturo teu pecado
ao meu tempero
nem meu corpo à tua massa.
tua imagem salpicada no meu peito
faz fumaça.





Ana Claudia Abrantes

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Literatura de Cordel - uma experiência. (O dia em que Deus deu folga ao inferno)




Foi um tempo de tristeza,
desses tempos agourados,
pois a tal moça singela
que um dia viu o diabo
demorou, mas, sim, danou-se.
Misturou-se em mesmo saco.

Namorada do Sem Nome,
uma amante dedicada,
sendo só por ele amada,
e querendo ser galada,
foi bondosa, resguardou-se
pra tentar salvar-lhe a alma.

...

Mas a alma corrompida
de Anjo que é do céu caído
tinha atos só pra moça,
para a moça e para o inferno.
O amor que o homem tinha
era só para a guria
e também pro tal castelo...

"O bondoso é bom pra todos" -
Pode ser que o Senhor diga.
Só quem sabe é quem mais sofre.
Sabe a dor de Heathcliff?
Pois Tinhoso era esse tipo.
Catarina, amando o Bicho,
uivaria, assim, feliz.

Redenção não haveria
para amável Capiroto.
A mulher não poderia
proteger o seu pescoço.
Pois juntou-se ao Tal nas manhas,
aprendeu, então, um pouco
do amante umas façanhas.

...

Por amor, Nossa Senhora,
valha a massa brasileira!
Que a mulher, em certa feita,
quis fazer uma proeza:
o profundo de um desejo
reuniu na sua sina
e pregou uma mentira.

Sai de baixo, sai de cima,
sai do meio, sai da esquina,
sai da rua, sai da casa,
sai do quarto, sai da sala
sai da frente, sai do lado,
sai do tudo, sai do nada!

Barbazul não é tão mau,
só queria era danar
cada jovem desleal.
Escondido atrás do enxofre
e das mãos de alçapão,
Barbazul também sabia
que ele tinha um coração.

Coração cheio de escudos
com as armas arroladas,
reunidas desde a infância
do Capeta em menino,
o horror Barbazulzinho.
Com o peito amargurado,
descobriu-se atraiçoado.

Como é triste o dia D,
Quando a Besta também chora.
Mais sofrido é não se ver,
ao seu lado, sua Senhora,
que o Fel mandou embora.
Pois do céu de onde ele veio,
caiu Lúcifer um dia.
E do Hades, sem floreios,
Cai Perséfone agora.

TUM
TUM
TUM!

...

Contra Deus ou contra os deuses
essa história não vigora.
Mas também contra o Amor
não é bem chegada a hora.
Os Demônios também amam,
tão amantes que é o diabo.
A paixão dos Pestilentos
tem a força de Tanatos.

Pois um doce era a menina
tão alegre e inda sincera.
Céus e infernos resolveram
que a mulher não merecia
ser julgada à revelia.
E os Canhetas assinaram
que o engodo era quimera,
e até dos Céus se ouvia:
"Escamoso, cuide dela!"

...

Sete Peles já sentiu
um alívio tão danado
quando a moça lhe sorriu
numa volta ao seu reinado.
Para o trono os dois seguiram,
sem os dramas derradeiros.
E fizeram amor autêntico
que aprenderam com os deuses,
praticando-o em seu reino.


(Chegando a esse ponto o narrador confunde propositalmente as noções de Hades, inferno e Diabo... Mas decide continuar a história, que julga mais bonita assim.)


Nesse dia, o barqueiro
nenhum óbolo aceitou.
Ancorou junto ao portão,
as entradas atrasou.
Todas almas malogradas
foram mesmo adiadas,
pra que o homem acolhesse,
na alcova então divina,
o retorno da rainha.

Mesmo em fé politeísta,
heresias e adultérios,
porque sério era o Amor,
um honesto sentimento,
não seriam os atores
empecilho ao cumprimento.
Nem por serem os pagãos,
ou porque, amasiados
seu laço era condenado.

Pra que houvesse todo tempo
pra que o amor se consumasse
e valesse o bom intento
da celeste e da vil classe,
Deus deu folga para o inferno! (O narrador sorri bondosa e abertamente) ...
Que os mortos esperassem!
Que fechassem as passagens!
Que o instante demorasse
pra Perséfone e pra Hades...


Ana Claudia Abrantes
18 e 19 de julho de 2010

oco e vazio

nada
ar
nada

breve
leve...



Ana Claudia Abrantes

Barbie e Ken, les enfants





"Babi, vem cá."
"Não."
"Quero te mostrar uma coisa."
Babi se aproxima e Ken estica o elástico do short para a frente, vitorioso. Entre curiosa e divertida, Babi faz "ah" e sugere que os dois fiquem sobre o último degrau onde faz sombra. Tenta explicar que ambos devem escolher cada um o seu lado do degrau e ficar de pernas abertas, centrados, pressionando a quina.
"se balançando." - demonstra.



Ana Claudia Abrantes

domingo, 18 de julho de 2010

Dúvida

As pessoas que passam em frente à loja de brinquedo riem do macaco de pelúcia com convulsão, mas o menino não acha engraçado. As pessoas riem do palhaço que perdeu as calças, mas esse garoto não acha engraçado. As pessoas riem do Dom Quixote e do Sancho Pança, mas ele não acha engraçado, não acha nada engraçado.
Olho para o pequeno e não sei se é por princípio, solidariedade ou desesperança. Por isso não sei se gosto ou desgosto.



Ana Claudia Abrantes

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Barbie e Ken

Ken descobriu que Barbie tem tetas e pode dar de mamar a quem quiser. Quando vê filmes pornôs no seu sábado solitário, para cada espécime de Barbie, inclusive as tediosamente vislumbradas, Ken se imagina no lugar dos homens, todos os atores, chupando, chupando. É obviamente por isso que ainda não precisa tê-la: ele já está lá, na cena, comendo a mocinha fútil e burra. Desde que, em criança, Babi o ensinou a se balançar na quina do último degrau, ele só goza com ela no pensamento, só rabisca notinhas de desamor por causa dela. Ken sabe que Barbie gosta de diálogos amorosos embora ela nunca tenha lido Barthes, sabe que a mulher é terna e puta, capaz de se arrastar feito um cachorro atrás de um gato arranhador malvado e depois acolhê-lo com todos os perdões próprios de seu metiê. Sabe que ela entrou em sua casa e o achou estupefato, embora Barbie desconheça o que significa essa palavra. E por ter descoberto isso tudo, Ken não consegue mais pensar em outra coisa.
Ken descobriu tarde demais que Barbie tem tetas e mostrou cedo demais que ele tinha um pau.


Ana Claudia Abrantes

Pessoa e persona

Uma luz mais baixa do que ela merece, cadeiras dobráveis um tanto enferrujadas, uma cerveja cristal em um copo de plástico na mesa da bela k., autêntica protagonista. Puseram uma ficha e está tocando "Eu não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio, pilar da ponte de tédio, que vai de mim para o outro... lá lá lá... ", interpretada por A.C.:

- O garçom pergunta "O de sempre, kiki?"
- Não, melhor não. Acho que ele chega mais próximo e pergunta "De novo?"
- Ótimo, assim ficou intrínseco. Então, kiki finge ignorar a pergunta, levanta devagar com seu olhar blasé e sagaz em direção ao foco de luz, segurando a cartolina de véspera, para pôr mais uma ficha. Nisso sabe-se observada pela plateia, sempre estupefata, de garçons.
- Pode ser... Mas acho importante que k. deixe entrever que se sabe observada, embora disfarce não olhar para os lados, primeiro isso... Depois é imprescindível que a estrela brilhe com notinhas encantadoras:

- "Eu sou só afeto."


Doçura e Avessa param de escrever, saindo da cena.
Começa, brilhantíssima.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Fragmentos de um discurso amoroso

Quero compreender (1994, p. 50)
Compreender.
Ao perceber repentinamente o episódio amoroso como um nó de razões inexplicáveis e de soluções bloqueadas
, a pessoa exclama:

1. _ “A mulher que mais amei me achava um Deus, mas não me adorava”! – dizendo isso, k. se esconde atrás do cartaz que desenhou com lápis cera, cola colorida e purpurina, onde pintou um sorriso sem olhos, para servir de máscara grega. A outra, que nunca foi a outra nem a mesma, uiva como os cachorros sem vergonha de saudade do dono, mas não desenha e mete a cara no proscênio:
_ O pano de boca está manchado de batom cor de rosa, mas a plateia é marrom.

2. A plateia movimenta-se sobre os assentos, mas não grita, pois não está assistindo a uma final de futebol. Um admirador, completamente seduzido por tamanha altivez, sopra do fundo:

3. _ Bela kiki, você é só afeto.



Ana Claudia Abrantes

terça-feira, 13 de julho de 2010

preferência

- Fala a verdade, apêndice bom não dói, mas também não inflama.





Ana C
(Por causa da Milena, que eu conheço sem conhecer, ando fazendo uns brevíssimos à-toa)

girassol guardado

como aquele super-herói ao contrário que só fica invisível quando ninguém está olhando, ele enfeitava o escuro.



Ana Claudia Abrantes

segunda-feira, 12 de julho de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

Barbie recebe Ken

- Atura-me - diz ken, o que pode gerar diferentes soluções:


1) Céu

Barbie fecha as pernas, gritando "Mas você não é Deus!" - bate a porta e vai para a sala ler o Cântico dos Cânticos.

2) Chão

Ela vira as costas, girando em decúbito e pára
sobre quatro apoios:
- Então não pare agora.

3) terra

Ela o recebe, como uma mulher, mas exige um fio.



Ana C

sábado, 10 de julho de 2010

Desconversando

- Ladrão de galinhas é a putaquiupariu! - ele poderia dizer, mas preferiu tergiversar.



Ana Claudia Abrantes

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Exemplo

Um dia vou comprar um batom vermelho então vou ser uma mulher. Já tenho finalmente um perfume francês, e lápis azul petróleo para combinar com os olhos, estou aprendendo. Minha mãe não me ensinou a me maquiar nem pelo exemplo, mas ela me apresentou os dois extremos de uma só mulher: eu sou calma, eu sou histérica; conforme convém. E vou, feliz descompensada, nesse desequilíbrio estável que é tambem uma síntese da mulher que em mim se adiou. Hoje saio descabelada para o trabalho, ou decido que já é hora de ir à padaria de salto fino enfim. Aprendi com as fotos de Clarice Lispector que rímel preto nas pálpebras é um nocaute! Enquanto minha mãe me ensinou, silenciosa, que os olhos mudam e por isso mudam as coisas. Tá certo, mãezinha, já faz um tempo que comprei o rímel. Não, não vamos chorar agora, não é á prova d’água…


Ana Claudia Abrantes
(Para M.)

Promessa

Um dia a flor vai criar raízes na pedra
e toda a Terra virá descansar à sombra da maior roseira do mundo.
Serão flores brancas, meu amor.
Uma vez por ano, um botão vermelho
indestrutível.


Ana Claudia Abrantes
(Para V.)

Bodas



É evidente que um cálice d'água, uma caixinha de jóia, um raro anel, um jarro de flores e uma cortina à brisa comporiam uma história ou um poema. É certo que existe poesia em tudo, e é claro que entre a prova de matemática e o desenho eu prefiro o que já escolho como teu melhor caminho. Tal como cai em suspenso o delicado pedido, é esperado que as flores fiquem murchas numa natureza morta.


Ana Claudia Abrantes
(Imagem de Milena Martins)

Dieta

Fruta-do-conde estourada debaixo da caixa de morangos mofando ao lado de duas tangerinas passadas.
Doce das coisas adiadas mas ainda ardidas,
não é um projeto de vida.
(Porque fruta passada tem mais açúcar. Ele se concentra todo, um pouco antes
de ir embora.)



Ana Claudia Abrantes

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Sábado ou despedida

Quer ir ao teatro, meu amor? Que tal um videozinho? Um cineminha, meu anjo? O que você quiser, meu bem... Sabe, na verdade, eu não quero não. Que tal um abraço? Uhm que bom... Dança pra mim? Que linda. Sabia que você é minha rainha? Mas, olha, nada disso eu quero, não. Quero curtir o meu sábado, ver minha TV. Fica aqui, amor, curta o meu sábado comigo. Do meu lado. Olha pra mim. Faz um cafezinho? Silencioso, eu? Eu? Não, amorzinho, só estou te admirando. Claro, o que você quiser. Mas o filme eu escolho. Não, eu também escolho a marca. Claro, sem dúvida só pode ser essa. Que bom, meu amor, pensamos do mesmo jeito! por isso que eu gosto tanto de você. Claro, claro, o que você quiser. Mas agora eu preciso ir. Preciso arrumar minha pasta de documentos, separar umas petições importantes, fazer a agenda de segunda-feira. Vou jogar um pouco de play-station, depois organizar o meu álbum de figurinhas. Ah, e o Monopoly Deal está todo espalhado no chão do quarto, preciso arrumar aquela bagunça. Adorei ficar com você, minha rainha, um beijo.

Ana Claudia Abrantes

terça-feira, 6 de julho de 2010

cubículo

fechei a janela
por causa de mosquito
tua imensidão
ficou no meu quarto.


Ana Claudia Abrantes

domingo, 4 de julho de 2010

pausa para uma graça alheia

FATOS

Não escrevo
sobre amor
ultimamente,
Finalmente não precisa.

Angélica Castilho
Rio de Janeiro, 27 de abril de 2010.

sábado, 3 de julho de 2010

vamos combinar



borboleta
bolha de sabão
neve de papel
são seres
da mesma categoria

Ana Claudia Abrantes

desejo

e assim eu queria me dar
para você:
fácil,
como a borboleta de asa quebrada.
e assim eu queria me dar
para você:
frágil,
como a borboleta de asa quebrada.
e assim eu queria me dar
para você:
ágil,
como a borboleta.
e assim eu hei de me dar:
tátil,
sutil.


Ana Claudia Abrantes
Para T.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

pela janela entreaberta para um espantalho

ambiente - uma sala silenciosa pintada de azul claro.

personagens - um pardal célere, um observador



entrou um pardal pardo na sala azul,
acelerado na sala fixa,
inquieto, de voo curto, na sala quieta.
da janela até o sofá, do sofá até a janela
o que se via era
pantomima de corvo no céu.
no peitoril,
sem enxergar ou intuir
a abertura certa,
feito mariposa ele se debatia
contra o vidro antirreflexo,
que lhe era o sol, vedado.
espantalho móvel de susto,
mau agouro anunciado do azul,
também às vezes me sinto
um pássaro burro.



Ana Claudia Abrantes

Porque é preciso

Por tudo que é mais sagrado manchamos tudo que é mais sagrado.

Por todas as verdades necessárias porém mal ditas,
todas as malditas mentiras bem ditas,
pelo engenho em dizê-las.
Pela arte de acreditar no que dizemos e no que dizem os seres amados,
mesmo sendo falsos os seres e as emoções.
Por tudo que nos é caro e que nos vem barato,
pela frígida certeza de ter
e por tratar como possuído o que se tem de fato.
Por lidar sem dor com o que se perdeu amargamente,
por seguir um caminho de formigas,
é que estamos vivos.

Porque se todas as verdades fossem bem ditas,
todas as mentiras, mal ditas,
porque se desacreditássemos em nós mesmos ou nos amores,
mesmo sendo claros,
porque se pagássemos o preço de tudo o que nos é caro,
porque se tivéssemos a certeza de ter
e ficássemos mais que satisfeitos com a certeza, felizes!
porque se deixássemos doer tudo o que doeu amargamente...
porque se escolhêssemos uma formiga igual a todas as outras e a seguíssemos no caminho de formigas,
estaríamos mortos.

Das coisas profanadas renascemos,
cada vez que uma mentira vem,
violentando o material de que supomos ser feitos:
triunfos humanos.

O engodo disso tudo é preciso,
e por isso tudo é que é preciso:
por tudo que é mais sagrado mancharmos
tudo que é mais sagrado.



Ana Claudia Abrantes