domingo, 4 de agosto de 2013

O segundo pensamento de Júlio

Um pensamento de Júlio vem
antes de tê-la,
quando enxerga suas clavículas e pontas ressaltadas
dos ombros, dos joelhos, da extremidade dos punhos;
quando cheira sua pele e as sobrancelhas.
Outro pensamento vem a Júlio
quando dentro dela
e outro ainda, quando fora, num abraço.

Um pensamento é pássaro
sentindo nos olhos o vento
da corrida sobre as gramas, sobre a variedade de folhas de árvore, sobre as rochas enfeitando a cidade, a calçada de pedras portuguesas.
Recebe o calor que ainda vem do asfalto e desvia dos fios de alta tensão.

Para resumir, o terceiro pensamento e nunca último, apartado e junto, voaria
para distante.

Mas o segundo pensamento de Júlio,
de quando está dentro dela,
se aninha.
Dormita sempre
e sempre à espera.
A boca aberta aguardando o grão,
o ninho disposto esperando a folha, o pequeno pedaço de caule,
tenro talvez,
sem pensar na vertigem (entre o ar e a luz
filtrada pelos galhos)
que a seis metros o separa do chão.


Ana Claudia Abrantes

Um comentário:

Gustavo Perez disse...

"dormita" Ah, Lua minguante, é difícil encarar, te encarar. Ah despojamento... uma barata passa em cima dos papéis e voa pela janela, maldita. Como descobrir a poesia na mulher que me fez desfazer amar? Como lidar com isso? Uma auto, auto, auto auto, auto... Esse é o lenço que eu mais tenho gosto. O que minha mãe escreveu as iniciais A.P. em tons de cinza xadrez claro me apega a esses pequeninos predicados. Talvez um coração dilacerante esse esquecimento sem fim, essa falta, esse vazio que se fez. Sigo. Sozinho, mudo, cheio de pequenos absurdos. Enganchado nesse poema, nessa prosa, mesmo que me doam as costas, os músculos, enquanto gotas salgadas infladas pela garganta querem saltar. O estômago vazio. Ouvindo ópera, sozinho, num sábado à noite. E ouvindo os clássicos. O piano. Franzino, zen, maluco, louro, insano. Homens muito valentes foram meus avôs diretos. Alguém me disse que eu era um ótimo ser humano. Minha mãe diz para honrar a estirpe, mas alguém diz que você não existe.
abç

G.