quarta-feira, 11 de julho de 2012

Condomínio

700 casas coloridas, ordenadas em sequência
de tom em tom.
Como se houvesse quadras
decoradas por canteiros,
como se os canteiros fossem
perfilados de angélicas
e o perfume completasse
a beleza das calçadas.
Como se em cada esquina, delicados postes fossem
alimentados;
como se houvesse homens
e os homens trocassem
as lâmpadas queimadas;
como se os casais trocassem
afagos,
como se os afagos fossem
pássaros,
que sempre voltassem aos mesmos lugares,
mas sem a impertinência das moscas,
sem a impertinência dos maridos,
que põem a mão na bunda das mulheres
e se masturbam
enquanto elas dormitam.

Como se os jardins de inverno redimissem
as faltas que,
lentamente,
eles e elas veem nos seus olhos de repente.

O projeto paisagístico não salva.
É uma guerra de raízes sob a terra,
São as forcas de cipó sobre a copa das árvores.
As pessoas continuam nos jardins, na piscina, no deck molhado.



Ana Claudia Abrantes

6 comentários:

Yan Oliveira disse...

A beleza hipócrita da pequena burguesia... Mal sabem as raízes que se movimentam e conspiram embaixo de seus pés...

Ana Claudia disse...

Oi, Yan, meu querido. Sabe, nesse caso aqui eu nem pensei em detonar os ditos pequenos burgueses, sabe. Eu me sinto solidária a eles, a mim. Nada salva. Nada nos salva. Os jardins de inverno não nos salvam da falta de brilho nos olhos, não nos livram das guerras que você imediatamente identificou no subsolo e que tantos não percebem, mas acontecem silenciosamente aqui e ali todo dia. Viver é tão difícil em qualquer rua ou condomínio... Obrigada por tudo Yan. E eu queria dizer que eu te devo muito carinho.

Yan Oliveira disse...

Ah, que isso... Assim fico até sem graça =) hehehehe Obrigado você por me encantar e inspirar com versos tão belos..

Barbara-Ella disse...

Perfeito.

Ranzinza disse...

Concordo com vc, nada nos salva, nada...

Nilson Barcelli disse...

Com a massificação perdemos a individualidade e passamos a ser números...
Excelente poema, gostei imenso.
Beijo, querida amiga.