segunda-feira, 8 de junho de 2009

Pomar de bergamotas

Olhava com ternura o casal que passava. Ouvira falar que tiveram filhos gordinhos e o povo acrescenta que o mais novo quase rasgou o corpo dela. Nessa época ele enlouqueceu. Faltou ao trabalho sem justificativa, ficou barbado; a caspa ficava dias salpicando sua camisa preta e ele pregado ao lado da cama. Até que concordou que era a única solução arrancar-lhe o útero. Quando ela acordou, entendeu que agora era metade mulher e ele decidiu mostrar-lhe a Europa um dia. Foi o que fizeram nesse fim de ano, depois de tantos anos do procedimento cirúrgico e agora quando ela não mais lembrava. Aliás, ela não vinha lembrando de muita coisa. Às vezes até embaralhava o rosto dos filhos e netos e, para chamar pelos nomes, simplesmente os sorteava. Agora nem mais a pílula azul ele tomava e fazia era tempo que nenhuma amante lhe acendia as memórias da madrugada. Um dia, escapou e ela soltou um pum. Havia demorado tanto que ele nem se surpreendeu mais. Mas ficou assustado quando ela se perdeu em Vilar dos Teles e ele sentiu que nunca mais a veria. Foi ali que ele pensou que o tempo passa e que não podemos fazer nada. E desconfiou o que sempre soubera: que ela não tinha sido o amor de sua vida não, mas era ela o amor que a vida deu e vinham sendo felizes sem mais, desde que decidiram não querer tanto.

Quantas vezes ela não gostou e tentou expelir o esperma dele de volta, forçando a descida para as coxas, mas tanto não conseguiu quanto ninguém ficou sabendo. Dizem que algumas fêmeas de inseto conseguem... Ele também já quis botar o travesseiro na cara dela. Um dia ele gritou. Outro, disse amém. Teve dia que quase se socaram. Mas quanto de medo também pode construir castelos de mármore? Só que o mármore, que não tem cheiro, tem o pomar de bergamotas do castelo e isso inebria hoje o meu apartamento inteiro.
FIM


Nota do autor:
Melhor sair às pressas antes que a minha inveja se transforme em duas e o meu talento para entortar faça efeito por telepatia na vida dos outros. Não ter um amor assim também me deixa verde, mas pedir é sempre um erro, um convite, à miséria. Então recolho minha mão estendida, e fico toda me querendo, invisível.




Ana Claudia Abrantes

2 comentários:

Laura Vieira disse...

Doce Ana, de certa forma o seu texto lembrou-me um conto do Dostoiévski que eu estava relendo ontem: 'A meiga".
Ao casal do conto do Dostoiévski talvez tenha faltado a tolerância que sobrou ao casal citado em seu texto.Sim, existiu uma tolerância imensa, mesmo quando o desejo da morte do outro esteve tão presente.Fico a pensar que os nossos grandes amores podem não durar mais do que uma estação e, no entanto, quando escolhemos que a história dure, independente do final do lirismo, também estamos escolhendo uma espécie de tranquilidade que as naturezas intensas ( aquelas que podem sentir tal inveja) não suportariam escolher...
Talvez a inveja seja unicamente esta: da tranquilidade escolhida.Afinal, quando escolhemos viver relacionamentos intensos e,normalmente, efêmeros, também estamos fugindo da tal tranquilidade, da construção de uma vida inteira ao lado de alguém a quem teremos um amor parecido ao que temos a um bichinho de estimação com o qual nos acostumamos...
Gostei MUITO da forma como se expressou...

Ana Claudia disse...

Amor parecido ao que temos a um bichinho de estimação com o qual nos acostumamos! Ah!
Dizia Paulo que para não arder é melhor casar. Ah! Mas quem escolhe o fogo e não a calma (acalma) arde o tempo todo, ah...