Cumprimento meus inimigos
porque eles são belos e sérios.
Há quem tema borboletas.
Tem menino que tem medo de galinhas.
Outros temem flores.
Também não há porque temerem a mim,
mas eu os honro sinceramente
por sua gentileza, pela abundância de seus bens e de seus beijos,
pela generosidade, pela quase displicência,
pelo despudor amoral com que se enredam em jogos em que sempre vencem.
Porque não me é possível não honrar o homem honrado,
cumprimento meus inimigos com os olhos .
Depois de séculos, quando vejo uma ruína, fico muda
em respeito a todo erro travado nas arenas,
em respeito a toda a matéria sopesada.
Cumprimento meus inimigos com os olhos e com o tronco.
Porque em contato com a terra áspera os pés engrossam,
mas os joelhos ainda se dobram quando necessário.
Porque até hoje a vara se inclina para a força do peixe, antes de
definitivamente
pescá-lo.
Ana Claudia Abrantes
domingo, 8 de janeiro de 2012
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Segredos simples

não se contam.
Um grilo, sobre pernas suavíssimas, pousaria sobre um peito sem acordá-lo.
A borboleta baila se adequando aos dedos que brincam com as asas amarelas.
A matéria de tudo o que é suave é leve, e é sucinto o nem se pode contar:
como ao beber água fresca: deixo-a pingar e não enxugo a boca,
como eu que vejo um buquê de flores do campo e o quero,
como minhas vontades de tomate,
como ter gosto de ver um carinho ousado de casal.
Há coisas que não se contam.
É do gato descer as escadas sem ranger degraus nem assustar a casa.
É da teia capturar o inseto sem antes ameaçá-lo.
O que não se pode contar não se pode conter.
O que te conto, não.
Ana Claudia Abrantes
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Quarto de despejo

Quanto maiores
os cílios
acumulam mais poeira.
Tapetes quanto mais felpudos: poeira.
Cortinas bem decoradas, poeira.
As pucumãs debaixo das escadas,
o pó decantado nos degraus.
Cobrindo o tempo nos móveis,
os lençóis acumulando ácaros.
O tempo parando nas casas,
o tempo no abandono dos quartos de despejo,
o tempo mal iluminado.
Poeira. Purpurina neutra salpicada com cuidado sobre as horas,
brilhando no feixe da tarde que insiste
em entrar pelo vidro da janela fechada.
A poeira aderindo à pele, no exame da ponta dos dedos
que passam
sobre a superfície da estante e da mesa, sobre a capa dos livros.
Os cílios,
quanto mais felpudos e bem decorados: poeira e rímel.
Uma camada negra e grossa de delineador
desde o canto até as extremidades.
Os olhos
por baixo da poeira dos cílios enfeitados
ainda reconhecem o que os dedos tocam:
as cinzas,
salgando a delicada aspereza, lenta, dos dias.
Ana Claudia Abrantes
sábado, 3 de dezembro de 2011
lamento
uns olhos faiscantes e só um pouco diabólicos, uma gargalhada de todas as portas abertas.
mas saiu como um cavalo selvagem de cabeça baixa.
A.C
mas saiu como um cavalo selvagem de cabeça baixa.
A.C
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Segredos de andar com pipas

O segredo é não ficar completamente ereta.
Há de se ter um leve inclinar que no alto empina,
alguma coisa que se torne acima, que se erga orgulhosa,
mas que se estique como a pipa, ao mesmo tempo aérea e em molejo.
Uns ombros mais arredios que o esterno,
um esgar de meia entrada na sala, como se, estando ali, fosse inevitável estar em outro lugar.
Deslizar,
mantendo umas porosidades e recantos :
absorvências e visgos antes preparados com cerol, tempo e postes de luz.
Assim delgada, voar.
.
.
.
Prender,
em ocasiões incidentais.
Cortar, sem intenção...
Ana Claudia Abrantes
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
digestibilidade OU os gatos
o impulso inaugural junta
o polegar e o indicador nos cabelos crespos e puxa, pela primeira vez.
e desde a primeira vez escorre um prazer de molhar virilhas de suor e sede.
depois eles passam unidos as horas da tarde, gozando mecha a mecha
as falhas, as frestas como resultado.
mas paira aquela fome de comer cabelo angustiante,
exposta languidamente em ângulos óbvios
de uma nudez pouco excitante, e ávida.
precisam de mais.
como traças conhecem os cantos mais porosos e digestivos,
eles se conhecem mordiscando a penugem das nucas, serelepes.
a vasta cabeleira também saltita em tufos concentrados, que caem.
entre as pequenas moitas que sobram no couro cabeludo, a pele clara
revela as veias mais verdes.
os olhos ainda são azuis, só mais expostos e escuros.
estão assim,
fazendo bolas de pelo e de saliva, fios entre os dedos.
e mesmo agora
ambos ainda querem todos os poemas
e provar papel de versos, nanquim e grafite, pele e unhas
até o sabugo.
Ana Claudia Abrantes
o polegar e o indicador nos cabelos crespos e puxa, pela primeira vez.
e desde a primeira vez escorre um prazer de molhar virilhas de suor e sede.
depois eles passam unidos as horas da tarde, gozando mecha a mecha
as falhas, as frestas como resultado.
mas paira aquela fome de comer cabelo angustiante,
exposta languidamente em ângulos óbvios
de uma nudez pouco excitante, e ávida.
precisam de mais.
como traças conhecem os cantos mais porosos e digestivos,
eles se conhecem mordiscando a penugem das nucas, serelepes.
a vasta cabeleira também saltita em tufos concentrados, que caem.
entre as pequenas moitas que sobram no couro cabeludo, a pele clara
revela as veias mais verdes.
os olhos ainda são azuis, só mais expostos e escuros.
estão assim,
fazendo bolas de pelo e de saliva, fios entre os dedos.
e mesmo agora
ambos ainda querem todos os poemas
e provar papel de versos, nanquim e grafite, pele e unhas
até o sabugo.
Ana Claudia Abrantes
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