
Quanto maiores
os cílios
acumulam mais poeira.
Tapetes quanto mais felpudos: poeira.
Cortinas bem decoradas, poeira.
As pucumãs debaixo das escadas,
o pó decantado nos degraus.
Cobrindo o tempo nos móveis,
os lençóis acumulando ácaros.
O tempo parando nas casas,
o tempo no abandono dos quartos de despejo,
o tempo mal iluminado.
Poeira. Purpurina neutra salpicada com cuidado sobre as horas,
brilhando no feixe da tarde que insiste
em entrar pelo vidro da janela fechada.
A poeira aderindo à pele, no exame da ponta dos dedos
que passam
sobre a superfície da estante e da mesa, sobre a capa dos livros.
Os cílios,
quanto mais felpudos e bem decorados: poeira e rímel.
Uma camada negra e grossa de delineador
desde o canto até as extremidades.
Os olhos
por baixo da poeira dos cílios enfeitados
ainda reconhecem o que os dedos tocam:
as cinzas,
salgando a delicada aspereza, lenta, dos dias.
Ana Claudia Abrantes
3 comentários:
Eu adorei esse lance da poeira. Fiquei aqui pensando no pó acumulado em mim.
Poema lindo, Ana.
E eu voltei ao Lírica Subversiva. Não tenho o cuidado que você tem com as palavras. Mas falo.
Beijos.
Maravilhoso, Ana!!
"Poeira. Purpurina neutra salpicada com cuidado sobre as horas".
Poeira como purpurina do tempo. O tempo que, encoberto pela poeira brilhante, tem ares de sonho.
Beijão!
Belíssimo, adorei.
Ana, minha querida amiga, desejo-te um Feliz Natal e um ano de 2012 cheio de coisas boas para ti e para a tua família.
Beijos.
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