segunda-feira, 17 de março de 2008
dos incêndios
se a combustão espontânea é iminente, até um naufrágio é tábua.
mas mantenha fora de seu holocausto o outro.
Ana Claudia Abrantes
brevíssimos VII
pensa bem. você gosta de ser cortado? gosta?
violência em uma nota
e então o baobá virou bonsai.
química
fácil como um sorriso
face a face a ti
facinho
Ana Claudia Abrantes
epitáfio (um resumo)
depois me deixe só a saliva no canto da boca
que eu sei ficar com o que me resta e que é só meu.
Ana Claudia Abrantes
epitáfio
depois.
depois me deixe só a saliva no canto da boca
que eu sei ficar com o que me resta e que é só meu.
foi só aqui que aconteceu,
foi só aqui que a vida fez seu universo em fábula
embrulhado em reluzente bolha de sabão que explodiu do amanhã.
Ana Claudia Abrantes
três e quatro
abra-se o sol para a lua entrar abra-se o mar.
abra-se o calor e instale-se o frio abra-se o rio.
e que este amor abra-se assim e vá.
vá adiante além embora em boa hora.
que ele desista e não insista amor meu
louco como espada em algodão inofensivo
manchando de vermelho sem sentido a cerda a lã o vinco
da pele pálida de esperança retardada em biênio.
a bienal do amor na minha casa
é onde o coração mancha de ácido a entrega dos vazios.
amor que se perdeu em suspensão sem nome,
amor que se esqueceu de acontecer
como mentira quintanesca e tão inocente
porque mentira de criança em quem se crê.
que venha a idade, me invada, arte
de fazer do tempo o aprendiz do torto irregular
para acolher a curva e o que há, depois.
depois me deixe só a saliva no canto da boca
que eu sei ficar com o que me resta e que é só meu.
foi só aqui que aconteceu,
foi só aqui que a vida fez seu universo em fábula,
embrulhado em reluzente bolha de sabão que explodiu do amanhã.
Ana Claudia Abrantes
domingo, 16 de março de 2008
um lugar de igualdade
Fora
tudo lembrava antítese.
tudo lembrava pequenez e hipertrofia.
o eclipse do sol no teto e um vento quase a derrubar os passarinhos.
Ali
tudo lembrava que virava enguia
esguia, esquiou entorses, patinou em lagoa vasta
fluida como água que toma a forma do continente.
espalhar-se para ser elástica,
contorcer-se para alongar-se.
para tomar espaço, gaseificar-se.
para perder-se, fragmentar-se.
escorrer, permeando o concreto,
infiltrar as muralhas do outro.
desviar contornando, abraçando
a extensão dos volumes, inclusive os enormes _
como água.
e achar-se enfim caco a caco, pedaço de não e sim.
e então igualar-se, ser mágica:
expandir-se do chão ao teto, nivelar-se:
dar ao corpo justamente
a dimensão do pensamento.
Ana Claudia Abrantes
(março de 2008)
rimas no corpo
(das frases: Degusta-me ou te decifro)
rimas no corpo
no topo
da pele
escreve poemas
nas mãos
nas palmas
nas nádegas
nas maçãs
do rosto
o corpo
um altar
uma oferta
ao somelier do seu
corpo.
Ana Claudia Abrantes
(março de 2008)
(Inspirado no resumo do filme “Livro de cabeceira”)