depois me deixe só a saliva no canto da boca
que eu sei ficar com o que me resta e que é só meu.
Ana Claudia Abrantes
depois me deixe só a saliva no canto da boca
que eu sei ficar com o que me resta e que é só meu.
Ana Claudia Abrantes
depois.
depois me deixe só a saliva no canto da boca
que eu sei ficar com o que me resta e que é só meu.
foi só aqui que aconteceu,
foi só aqui que a vida fez seu universo em fábula
embrulhado em reluzente bolha de sabão que explodiu do amanhã.
abra-se o sol para a lua entrar abra-se o mar.
abra-se o calor e instale-se o frio abra-se o rio.
e que este amor abra-se assim e vá.
vá adiante além embora em boa hora.
que ele desista e não insista amor meu
louco como espada em algodão inofensivo
manchando de vermelho sem sentido a cerda a lã o vinco
da pele pálida de esperança retardada em biênio.
a bienal do amor na minha casa
é onde o coração mancha de ácido a entrega dos vazios.
amor que se perdeu em suspensão sem nome,
amor que se esqueceu de acontecer
como mentira quintanesca e tão inocente
porque mentira de criança em quem se crê.
que venha a idade, me invada, arte
de fazer do tempo o aprendiz do torto irregular
para acolher a curva e o que há, depois.
depois me deixe só a saliva no canto da boca
que eu sei ficar com o que me resta e que é só meu.
foi só aqui que aconteceu,
foi só aqui que a vida fez seu universo em fábula,
embrulhado em reluzente bolha de sabão que explodiu do amanhã.
Fora
tudo lembrava antítese.
tudo lembrava pequenez e hipertrofia.
o eclipse do sol no teto e um vento quase a derrubar os passarinhos.
Ali
tudo lembrava que virava enguia
esguia, esquiou entorses, patinou em lagoa vasta
fluida como água que toma a forma do continente.
espalhar-se para ser elástica,
contorcer-se para alongar-se.
para tomar espaço, gaseificar-se.
para perder-se, fragmentar-se.
escorrer, permeando o concreto,
infiltrar as muralhas do outro.
desviar contornando, abraçando
a extensão dos volumes, inclusive os enormes _
como água.
e achar-se enfim caco a caco, pedaço de não e sim.
e então igualar-se, ser mágica:
expandir-se do chão ao teto, nivelar-se:
dar ao corpo justamente
a dimensão do pensamento.
Ana Claudia Abrantes
(março de 2008)
(das frases: Degusta-me ou te decifro)
rimas no corpo
no topo
da pele
escreve poemas
nas mãos
nas palmas
nas nádegas
nas maçãs
do rosto
o corpo
um altar
uma oferta
ao somelier do seu
corpo.
Ana Claudia Abrantes
(março de 2008)
(Inspirado no resumo do filme “Livro de cabeceira”)
