terça-feira, 6 de julho de 2010

cubículo

fechei a janela
por causa de mosquito
tua imensidão
ficou no meu quarto.


Ana Claudia Abrantes

domingo, 4 de julho de 2010

pausa para uma graça alheia

FATOS

Não escrevo
sobre amor
ultimamente,
Finalmente não precisa.

Angélica Castilho
Rio de Janeiro, 27 de abril de 2010.

sábado, 3 de julho de 2010

vamos combinar



borboleta
bolha de sabão
neve de papel
são seres
da mesma categoria

Ana Claudia Abrantes

desejo

e assim eu queria me dar
para você:
fácil,
como a borboleta de asa quebrada.
e assim eu queria me dar
para você:
frágil,
como a borboleta de asa quebrada.
e assim eu queria me dar
para você:
ágil,
como a borboleta.
e assim eu hei de me dar:
tátil,
sutil.


Ana Claudia Abrantes
Para T.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

pela janela entreaberta para um espantalho

ambiente - uma sala silenciosa pintada de azul claro.

personagens - um pardal célere, um observador



entrou um pardal pardo na sala azul,
acelerado na sala fixa,
inquieto, de voo curto, na sala quieta.
da janela até o sofá, do sofá até a janela
o que se via era
pantomima de corvo no céu.
no peitoril,
sem enxergar ou intuir
a abertura certa,
feito mariposa ele se debatia
contra o vidro antirreflexo,
que lhe era o sol, vedado.
espantalho móvel de susto,
mau agouro anunciado do azul,
também às vezes me sinto
um pássaro burro.



Ana Claudia Abrantes

Porque é preciso

Por tudo que é mais sagrado manchamos tudo que é mais sagrado.

Por todas as verdades necessárias porém mal ditas,
todas as malditas mentiras bem ditas,
pelo engenho em dizê-las.
Pela arte de acreditar no que dizemos e no que dizem os seres amados,
mesmo sendo falsos os seres e as emoções.
Por tudo que nos é caro e que nos vem barato,
pela frígida certeza de ter
e por tratar como possuído o que se tem de fato.
Por lidar sem dor com o que se perdeu amargamente,
por seguir um caminho de formigas,
é que estamos vivos.

Porque se todas as verdades fossem bem ditas,
todas as mentiras, mal ditas,
porque se desacreditássemos em nós mesmos ou nos amores,
mesmo sendo claros,
porque se pagássemos o preço de tudo o que nos é caro,
porque se tivéssemos a certeza de ter
e ficássemos mais que satisfeitos com a certeza, felizes!
porque se deixássemos doer tudo o que doeu amargamente...
porque se escolhêssemos uma formiga igual a todas as outras e a seguíssemos no caminho de formigas,
estaríamos mortos.

Das coisas profanadas renascemos,
cada vez que uma mentira vem,
violentando o material de que supomos ser feitos:
triunfos humanos.

O engodo disso tudo é preciso,
e por isso tudo é que é preciso:
por tudo que é mais sagrado mancharmos
tudo que é mais sagrado.



Ana Claudia Abrantes