Os pontos finais são perfeitos na poesia, porque a arte pede que se adivinhe. Por isso, reticências e exclamações são desnecessárias esteticamente. Só alguns privilegiados mestres!, gênios!!, reis!!! podem se dar ao desplante, ao disparate do exagero: o heterônimo Álvaro de Campos, Mário de Andrade em seu momento mais ... ui... futurista, Mariana Alcoforado, Florbela Espanca, Álvares de Azevedo. Só tipos como esses podem. De resto, admiro e me deleito com a arte assim: que dá pouco para que se deduza o muito. Ponto.
Mas, na vida, hei de amar os bregas, os catatônicos, os patéticos, os mentirosos exagerados. Hei de encontrar o amor na doença, no pânico e nas manias, nos meus espelhos tortos e enferrujados, nos espelhos de circo, que me deformam, que me invertem, que me põem maior ou tão menor do que eu pensava que era. Na vida, é o visgo que me chama, não a seiva, é a cica que me surpreende, não o sumo; é o palhaço torto, feio, assustado, não a atriz enfeitada de algo que não é a própria vida. Hei de amar quem ama os ratos e morcegos mesmo que eu não ame ratos e morcegos, hei de morrer por quem me mata, hei de sofrer a ascendência de quem me domina, hei de contrair doenças por amor, hei de curá-las por raiva. Na vida, hei de suprir o amor a quem não ama a si próprio, hei de morrer por minhas causas injustas, validada apenas pelo fato de que são as minhas causas injustas. E não me arrepender de ter morrido e não viver de novo sem um cimo, um sino, um ritmo, uma obra que me contagie a inteligência e a vontade. Na vida, mais que os sotaques e sinais diacríticos na voz de meus amores, quero-os com uma combinação de interrogação e susto, quero-os com a vivacidade do pulo no abismo, quero-os com a pura indagação de quem esquece tudo, quero-os com força e devagar. A é uma interrogação constante, B é uma interrogação acompanhada de exclamação vívida, C é meu buraco negro de exclamações em sequência e D há de ser pra sempre minhas reticências. Não ligo para E, que nunca exclama.
Na arte, é suficiente o ponto e fim, ela se basta e se amplia além dos meus contornos, ela já é grande. Mas a vida só me anima quando se me dá transbordando, mesmo que eu nunca tenha sabido exatamente o que fazer com isso.
Ana Claudia Abrantes
11 de março de 2010
quinta-feira, 11 de março de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
destempo
amar, sem, querer,
este, sem, poder
sem, querer.
me quererem, contrária, do que sou,
e assim, terem, a mim,
pela metade:
um destempo de tudo.
chorar, enquanto, vão,
ir, enquanto, ficam.
aqui, não é, agora,
outrora, éamanhã, talvez.
Ana Claudia Abrantes
09 de fevereiro de 2010
este, sem, poder
sem, querer.
me quererem, contrária, do que sou,
e assim, terem, a mim,
pela metade:
um destempo de tudo.
chorar, enquanto, vão,
ir, enquanto, ficam.
aqui, não é, agora,
outrora, éamanhã, talvez.
Ana Claudia Abrantes
09 de fevereiro de 2010
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Drogas
Reações adversas. No rótulo não estava escrito "podem aparecer alterações na pele (vermelhidão, urticária)", o que, sei, afeta diretamente o sistema simpático, já que neutraliza os efeitos cosméticos dos frascos e das frases feitas. Psicossomatizei você e não há nada que me faça te engolir, drágea.
Ana Claudia Abrantes
07 de fevereiro de 2010
Ana Claudia Abrantes
07 de fevereiro de 2010
sujeito e objeto
no sujeito, o paradoxo:
dele depende a coisa subjetiva;
ele faz, ele sofre.
mas no étimo, bem no íntimo,
é sujeito ao amor de alguém.
Ana Claudia Abrantes
07 de fevereiro de 2010
dele depende a coisa subjetiva;
ele faz, ele sofre.
mas no étimo, bem no íntimo,
é sujeito ao amor de alguém.
Ana Claudia Abrantes
07 de fevereiro de 2010
visão da cidade
sinal parado para carros.
do pára-brisa se vê
entre muitas pernas,
outras marcas:
nove pernas brancas no chão.
mas é tanta a travessia,
que a faixa de pedestres é que anda
em pedaços.
Ana Claudia Abrantes
07 de fevereiro de 2010
do pára-brisa se vê
entre muitas pernas,
outras marcas:
nove pernas brancas no chão.
mas é tanta a travessia,
que a faixa de pedestres é que anda
em pedaços.
Ana Claudia Abrantes
07 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
breve história de amor
alice claudicante e airam alheado.
queria alice dar-se, deliciar-se.
aliciado, cede airam ao que era seu, toma-o.
alice então, alienada.
do lado de dentro, nem pensa
em quebrar o espelho.
Ana Claudia Abrantes
03 de fevereiro de 2010
queria alice dar-se, deliciar-se.
aliciado, cede airam ao que era seu, toma-o.
alice então, alienada.
do lado de dentro, nem pensa
em quebrar o espelho.
Ana Claudia Abrantes
03 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
se é!
é e num é, tudo meio desarrumado mesmo, melhor assim. compensa que não sendo de todo não é tão ruim nem tão bom,
porque, sendo de todo, só é muito bom ou ruim como o diabo. melhor assim.
Ana Claudia Abrantes
31 de janeiro de 2010
porque, sendo de todo, só é muito bom ou ruim como o diabo. melhor assim.
Ana Claudia Abrantes
31 de janeiro de 2010
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