quinta-feira, 11 de março de 2010

Pontuação ?, !?, !!!, ...

Os pontos finais são perfeitos na poesia, porque a arte pede que se adivinhe. Por isso, reticências e exclamações são desnecessárias esteticamente. Só alguns privilegiados mestres!, gênios!!, reis!!! podem se dar ao desplante, ao disparate do exagero: o heterônimo Álvaro de Campos, Mário de Andrade em seu momento mais ... ui... futurista, Mariana Alcoforado, Florbela Espanca, Álvares de Azevedo. Só tipos como esses podem. De resto, admiro e me deleito com a arte assim: que dá pouco para que se deduza o muito. Ponto.
Mas, na vida, hei de amar os bregas, os catatônicos, os patéticos, os mentirosos exagerados. Hei de encontrar o amor na doença, no pânico e nas manias, nos meus espelhos tortos e enferrujados, nos espelhos de circo, que me deformam, que me invertem, que me põem maior ou tão menor do que eu pensava que era. Na vida, é o visgo que me chama, não a seiva, é a cica que me surpreende, não o sumo; é o palhaço torto, feio, assustado, não a atriz enfeitada de algo que não é a própria vida. Hei de amar quem ama os ratos e morcegos mesmo que eu não ame ratos e morcegos, hei de morrer por quem me mata, hei de sofrer a ascendência de quem me domina, hei de contrair doenças por amor, hei de curá-las por raiva. Na vida, hei de suprir o amor a quem não ama a si próprio, hei de morrer por minhas causas injustas, validada apenas pelo fato de que são as minhas causas injustas. E não me arrepender de ter morrido e não viver de novo sem um cimo, um sino, um ritmo, uma obra que me contagie a inteligência e a vontade. Na vida, mais que os sotaques e sinais diacríticos na voz de meus amores, quero-os com uma combinação de interrogação e susto, quero-os com a vivacidade do pulo no abismo, quero-os com a pura indagação de quem esquece tudo, quero-os com força e devagar. A é uma interrogação constante, B é uma interrogação acompanhada de exclamação vívida, C é meu buraco negro de exclamações em sequência e D há de ser pra sempre minhas reticências. Não ligo para E, que nunca exclama.
Na arte, é suficiente o ponto e fim, ela se basta e se amplia além dos meus contornos, ela já é grande. Mas a vida só me anima quando se me dá transbordando, mesmo que eu nunca tenha sabido exatamente o que fazer com isso.

Ana Claudia Abrantes
11 de março de 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

destempo

amar, sem, querer,
este, sem, poder
sem, querer.
me quererem, contrária, do que sou,
e assim, terem, a mim,
pela metade:
um destempo de tudo.
chorar, enquanto, vão,
ir, enquanto, ficam.

aqui, não é, agora,
outrora, éamanhã, talvez.



Ana Claudia Abrantes
09 de fevereiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Drogas

Reações adversas. No rótulo não estava escrito "podem aparecer alterações na pele (vermelhidão, urticária)", o que, sei, afeta diretamente o sistema simpático, já que neutraliza os efeitos cosméticos dos frascos e das frases feitas. Psicossomatizei você e não há nada que me faça te engolir, drágea.


Ana Claudia Abrantes
07 de fevereiro de 2010

sujeito e objeto

no sujeito, o paradoxo:
dele depende a coisa subjetiva;
ele faz, ele sofre.
mas no étimo, bem no íntimo,
é sujeito ao amor de alguém.


Ana Claudia Abrantes
07 de fevereiro de 2010

visão da cidade

sinal parado para carros.
do pára-brisa se vê
entre muitas pernas,
outras marcas:
nove pernas brancas no chão.
mas é tanta a travessia,
que a faixa de pedestres é que anda
em pedaços.



Ana Claudia Abrantes
07 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

breve história de amor

alice claudicante e airam alheado.

queria alice dar-se, deliciar-se.

aliciado, cede airam ao que era seu, toma-o.

alice então, alienada.

do lado de dentro, nem pensa

em quebrar o espelho.




Ana Claudia Abrantes
03 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

se é!

é e num é, tudo meio desarrumado mesmo, melhor assim. compensa que não sendo de todo não é tão ruim nem tão bom,
porque, sendo de todo, só é muito bom ou ruim como o diabo. melhor assim.




Ana Claudia Abrantes
31 de janeiro de 2010