Era uma substituta e, como toda substituta, começava mal-amada. Eu também sou uma substituta, eu sei. Porque sei, tentei ser amável, mas além de ser substituta sou humana das piores e acabei fazendo o que todos fazem: amei menos a substituta. A substituta percebeu meu meio amor, mas, precisando ser aceita, acedeu, como é da natureza da substituição.
Os substitutos, se não avisados por alguém ou por intuição, vão desprotegidos ao encontro do mal querer implícito. O substituto desavisado já começa querente, querendo ser amado sem condição ainda para tal. A condição é somente alheia, o substituto não dá as cartas: planta nova em jardim pomposo fica na sombra; recém-chegado no banco da frente pára no primeiro sinal; passageiro novo em ônibus lotado via Madureira-Bananal às oito horas, vai encontrar lugar? Há! O substituto ardoroso é ingênuo feito saia godê na ventania; sabe que não vai dar, mas insiste e sempre paga calcinha.
Já eu sou uma substituta orgulhosa irremediável. Faço questão de ser amada não. Sou só ensaio porque vivo sem patrocínio. E se ninguém paga pra ver, não sabe o que está perdendo. Porque o substituto orgulhoso pensa que pode cativar na passarela, só que ele não sai e dá-se o desperdício igual ao de pessoa genial em universo limitado. O substituto não tem chance. Mas tem sempre quem o queira como estepe da emoção, como segundo marcador de livros, como livro fácil pra descansar de Joyce ou da G.H. É útil.
O substituto não entra no portarretrato. Aliás, retrato não é coisa pra substituto, no máximo um digitalizado facilmente apagável, nada de impressão em papel. Substituto não vai pra estante. Substitutos só vão até a cama e o canto do quarto.
Sabe-se de histórias de substitutos que surpreendem, mas geralmente quando o titular era meio displicente. Quando no fundo no fundo ele não era tão bom assim. Então o substituto, inteligente, usa a ação e a sabedoria: faz e espera. Um titular forjado sempre é desmascarado e sua magnanimidade não cabe mais num copo. Se alguém me substituir ninguém vai chorar. E olha que eu até posso transbordar.
Mas se o titular é um mito, meu caro. Mitos são mais aderentes que fantasmas. Porque os meus fantasmas não passam por portas trancadas, tudo tem limite. Já o mito é a segunda pele das paredes, é a fada dupla presa em estrelas pequenas. Contra mitos não há argumentos e o substituto repete o C.A. porque não sabe rabiscar direito. É, afinal, o C.A. dos gênios, mas eu.
Bem, a substituta... No dia em que a substituta chegou a minha casa, ela se comportou sem pretensão, bem no lugar dela, como cabe às substitutas. E por isso pacientemente eu lhe ensinei a colocar os garfos e facas na posição que eu queria sempre e sempre insistia em dizer à outra; ensinei a pôr mais "comfort" no molho das roupas, como eu não tinha tempo de lembrar à outra; ensinei a colocar menos cominho na comida, como há muito eu pretendia dizer à outra. E a outra, sua parente, dizem que está até com ciúmes. Sem razão. Porque essa outra já havia pensado em se matar, e ter pensado em se matar pelo menos uma vez na vida é condição essencial pra ser alguém pra se gostar. É que, quando se quer muito, a vida é pouca.
Minha nova substituta não tem coisa vívida. Desde que seja vida já está bom. Ela não me toca nem gosta de música. Ela não tem vontade pulando dentro dela. Ela mistura pano de prato com pano de chão porque misturaria cigarro com sonhos. Ela não precisa de portarretrato, ela não pede nada. Parece só feita de dentes parcos, marido e filhos, muitos filhos. Ela precisa de leite, não de água. Minha substituta precisa do meu compromisso social, não do meu amor e isso me mata... Vou comprar uma pomada para as manchas do seu rosto porque eu gosto de arte e do que é belo e ninguém merece ver flores pisadas dentro de casa.
P.S.
No dia em que eu me cansar de ser uma substituta, plantarei um pomar só para mim. Lá eu terei maracujás e onze horas, e plantarei de novo manga-espada. No muro alto eu me colocarei, impressa, e ficarei ali aderida. Para que nunca ninguém venha me substituir no papel de hera.
Ana Claudia Abrantes
quarta-feira, 8 de julho de 2009
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Unção extrema
Há uma taça em primeiro plano, à esquerda de Jesus. Esta é a mão com que Ele segura a mão do Pai, pois Deus só tem o lado direito aos melhores. Enquanto faz, com a direita, o juramento divino e, com a esquerda, segura a mão do Pai (que dizem só ter a direita, já que ninguéu ouviu falar sobre o Seu lado esquerdo), Ele não beberá da taça.
Depois, Deus o dá aos homens. Será quando Ele tomará aquele vinho com a esquerda. E, então, levemente ébrio, perdoará todos os nossos pecados.
Ana Claudia Abrantes
22/06/2009
Depois, Deus o dá aos homens. Será quando Ele tomará aquele vinho com a esquerda. E, então, levemente ébrio, perdoará todos os nossos pecados.
Ana Claudia Abrantes
22/06/2009
domingo, 21 de junho de 2009
ao molho pardo
juliana de beterraba, juliana de cenoura, juliana de batata, juliana de piranha.
escondidinho de camarão, escondidinho de carne seca, escondidinho de piranha.
dobradinha.
creme de abóbora com gorgonzola e juliana de legumes, caldo de piranha.
juliana escondidinha, dobradinha, na mesa:
caldo de juliana,
picadinho de juliana, juliana legume.
(Ùltima versão)
Ana Claudia Abrantes (e demais colaboradores!)
escondidinho de camarão, escondidinho de carne seca, escondidinho de piranha.
dobradinha.
creme de abóbora com gorgonzola e juliana de legumes, caldo de piranha.
juliana escondidinha, dobradinha, na mesa:
caldo de juliana,
picadinho de juliana, juliana legume.
(Ùltima versão)
Ana Claudia Abrantes (e demais colaboradores!)
sexta-feira, 12 de junho de 2009
juliana
juliana de beterraba, juliana de cenoura, juliana de batata, juliana de piranha.
escondidinho de camarão, escondidinho de carne seca, escondidinho de piranha.
dobradinha.
creme de abóbora com gorgonzola e juliana de legumes, caldo de piranha.
juliana escondidinha, dobradinha, na mesa:
caldo de juliana,
picadinho de juliana, juliana legume.
Ana Claudia Abrantes
11 de junho de 2009
escondidinho de camarão, escondidinho de carne seca, escondidinho de piranha.
dobradinha.
creme de abóbora com gorgonzola e juliana de legumes, caldo de piranha.
juliana escondidinha, dobradinha, na mesa:
caldo de juliana,
picadinho de juliana, juliana legume.
Ana Claudia Abrantes
11 de junho de 2009
terça-feira, 9 de junho de 2009
O.caso de amor
Oco acaso, caso oco, acaso uma testa no fundo da piscina. Bem que ele avisou: Mergulhos não são aconselháveis no vazio. Mas ela, que não conhecia homeopatia, esperava um fundo falso. E sair do outro lado com uma bóia na mão e um remendo de nada no supercílio. Que nada.
Oco acaso, caso oco, ocaso.
Ana Claudia Abrantes
09 de junho de 2009
Oco acaso, caso oco, ocaso.
Ana Claudia Abrantes
09 de junho de 2009
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Pomar de bergamotas
Olhava com ternura o casal que passava. Ouvira falar que tiveram filhos gordinhos e o povo acrescenta que o mais novo quase rasgou o corpo dela. Nessa época ele enlouqueceu. Faltou ao trabalho sem justificativa, ficou barbado; a caspa ficava dias salpicando sua camisa preta e ele pregado ao lado da cama. Até que concordou que era a única solução arrancar-lhe o útero. Quando ela acordou, entendeu que agora era metade mulher e ele decidiu mostrar-lhe a Europa um dia. Foi o que fizeram nesse fim de ano, depois de tantos anos do procedimento cirúrgico e agora quando ela não mais lembrava. Aliás, ela não vinha lembrando de muita coisa. Às vezes até embaralhava o rosto dos filhos e netos e, para chamar pelos nomes, simplesmente os sorteava. Agora nem mais a pílula azul ele tomava e fazia era tempo que nenhuma amante lhe acendia as memórias da madrugada. Um dia, escapou e ela soltou um pum. Havia demorado tanto que ele nem se surpreendeu mais. Mas ficou assustado quando ela se perdeu em Vilar dos Teles e ele sentiu que nunca mais a veria. Foi ali que ele pensou que o tempo passa e que não podemos fazer nada. E desconfiou o que sempre soubera: que ela não tinha sido o amor de sua vida não, mas era ela o amor que a vida deu e vinham sendo felizes sem mais, desde que decidiram não querer tanto.
Quantas vezes ela não gostou e tentou expelir o esperma dele de volta, forçando a descida para as coxas, mas tanto não conseguiu quanto ninguém ficou sabendo. Dizem que algumas fêmeas de inseto conseguem... Ele também já quis botar o travesseiro na cara dela. Um dia ele gritou. Outro, disse amém. Teve dia que quase se socaram. Mas quanto de medo também pode construir castelos de mármore? Só que o mármore, que não tem cheiro, tem o pomar de bergamotas do castelo e isso inebria hoje o meu apartamento inteiro.
FIM
Nota do autor:
Melhor sair às pressas antes que a minha inveja se transforme em duas e o meu talento para entortar faça efeito por telepatia na vida dos outros. Não ter um amor assim também me deixa verde, mas pedir é sempre um erro, um convite, à miséria. Então recolho minha mão estendida, e fico toda me querendo, invisível.
Ana Claudia Abrantes
Quantas vezes ela não gostou e tentou expelir o esperma dele de volta, forçando a descida para as coxas, mas tanto não conseguiu quanto ninguém ficou sabendo. Dizem que algumas fêmeas de inseto conseguem... Ele também já quis botar o travesseiro na cara dela. Um dia ele gritou. Outro, disse amém. Teve dia que quase se socaram. Mas quanto de medo também pode construir castelos de mármore? Só que o mármore, que não tem cheiro, tem o pomar de bergamotas do castelo e isso inebria hoje o meu apartamento inteiro.
FIM
Nota do autor:
Melhor sair às pressas antes que a minha inveja se transforme em duas e o meu talento para entortar faça efeito por telepatia na vida dos outros. Não ter um amor assim também me deixa verde, mas pedir é sempre um erro, um convite, à miséria. Então recolho minha mão estendida, e fico toda me querendo, invisível.
Ana Claudia Abrantes
corte
não tenho sido véus nem transparências, tenho sido o ponto final guilhotinando o não da palavra. e um não interrompido não se transforma em sim, nem talvez. porque o não da palavra ecoa. Cortar-lhe o eco é.
Ana Claudia Abran.
Ana Claudia Abran.
Assinar:
Postagens (Atom)